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A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

Em 1988, cinco rapazes lançavam o álbum 88, o quarto da sua carreira. Numa das faixas cantavam sobre a sua alegre casinha, tão modesta quanto eles. No entanto, foram precisos mais de 20 anos para que os Xutos & Pontapés tivessem, efectivamente, a sua casinha. Até agora, estavam confinados a ensaiar numa pequena garagem, que entretanto se tinha-se tornado impraticável. “Em vez de ser um sítio de criação tinha-se tornado um sítio de tortura”, conta Tim. “O Tim já tinha de tocar de headphones porque não se conseguia ouvir a ele próprio. Era uma sala mínima com uma pressão acústica horrível. Serviu o seu tempo, estivemos lá muitos anos”, acrescenta Kalú. Foi dele, aliás, que partiu este projecto, quando ofereceu aos restantes membros um desenho desta Casinha. Depois, com a colaboração da dupla de arquitectos Aires Mateus, o desenho ganhou forma. A forma é de um triplex, nos arredores de Loures, onde reúnem escritório, estúdio, garagem e armazém. O nome já estava definido à partida: A Casinha.

Foi já desta Casinha – onde se instalaram há menos de três anos – que saiu o álbum que agora apresentam. O título foi simples de encontrar. Puro, porque é assim que a sua linguagem musical, enquanto grupo, se mantém. Pura. Intocada. Afinal, é apenas rock&roll. Mas é rock&roll cheio de mensagens e com um olhar atento sobre a realidade. E, num momento como o actual, o difícil foi filtrar as temáticas, desabafa Tim, que assina todas as letras de Puro. “Foi difícil tentar não meter tudo o que aconteceu nos últimos anos no país. Mas a verdade é que as pessoas também estão mais despertas e encontram sentidos quando, noutras alturas, não estavam para aí viradas. Já fiz letras mais brutas, como uma em que chamava às pessoas ‘carneirada mole’, mas na altura estavam inebriadas com o dinheiro da CEE e não ligaram. Agora até uma vírgula ganha significado”.

 

A força de uma amizade

 

“O tempo passou a correr”, diz Tim, quando recorda aquele primeiro concerto, a 13 de Janeiro de 1979, na sala Alunos de Apolo, em que a vontade de fazer acontecer não tinha limites. A verdade é que, quando começaram, nunca pensaram que cruzariam este marco. Afinal, quantas bandas, mesmo ao nível internacional, sopram as 35 velas? “Era impossível prever que, em Portugal, pudesse existir uma banda durante 35 anos, ultrapassando as dificuldades”.

 

Ultrapassaram sempre essas dificuldades, mas não as negam. Questionaram a continuidade. “Todos o fizemos, a sorte é que questionámos em momentos diferentes”, ironiza Zé Pedro. “Se o tivéssemos feito todos ao mesmo tempo, hoje não estaríamos aqui”.

Houve, porém, um momento, no final dos anos 80, em que o fim esteve muito próximo. “Levámos uma banhada muito séria, passámos dificuldades e intrigas entre nós, lançadas pela pessoa que nos deu a banhada. Tivemos uma profunda crise financeira e uma saturação muito grande. Aqui tivemos um interregno sem saber bem como retomar a coisa”, recorda Zé Pedro.

 

Foi nesta altura que surgiu a primeira aventura a solo de um dos Xutos, quando Tim se juntou ao colectivo Resistência. “Coincidiu com essa crise e, nessa altura, naturalmente houve a ideia de que o poderíamos ter perdido”, confessa Zé Pedro. Hoje consideram estes outros desafios naturais e enriquecedores para os Xutos & Pontapés.

 

Foi Kalú quem conseguiu reunir a banda. Valeu o amor à música e a amizade que, ainda que beliscada, continuava a existir. “Achei que não nos podíamos deixar abater por algo que outros fizeram. Éramos tenrinhos e deixámo-nos afectar por coisas que essa pessoa disse, e isso fomentou muito a discórdia”. Arranjaram uma casa em Sintra e ali passaram uma longa temporada, isolados do mundo. Falaram muito, redescobriram-se enquanto banda e gravaram um disco. E recuperaram uma amizade.

 

A verdade é que não são só os 35 anos da banda que se assinalam em 2014. É também essa amizade entre cinco homens, a que o tempo trouxe outro fôlego. “Os egos, dentro dos Xutos & Pontapés, nunca foram grande motivo de discórdia. Sempre soubemos respeitar”, diz Zé Pedro. Ainda assim, assegura que, até pelas dificuldades, criaram uma “maior unidade ao longo do tempo”. Ao que Tim acrescenta: “Hoje temos algo mais sólido. Com o passar dos anos já sabemos que há certos caminhos pelos quais não vale a pena ir porque dá bronca. Quando um de nós tem uma posição concreta, o grupo aceita. Houve alturas em que íamos quatro numa direcção e o quinto ia contrariado. Hoje há uma maior noção de grupo”. Apesar desta cumplicidade, é raro pegarem no telefone para falarem uns com os outros. Já passam muito tempo juntos. E, quando estão juntos, falam de tudo. “Estamos a par de tudo o que se passa na vida uns dos outros. A verdade é que, quando estamos no estúdio, não estamos sempre a tocar. Há muito convívio”, conta Kalú entre gargalhadas.

 

Dos excessos às famílias

 

Recordam com um sorriso meigo os primeiros anos, quando o sangue na guelra típico da juventude convidava a excessos. Passaram por quase todos. “Descontrolávamo-nos uns aos outros”, confessa Gui. Mas também a este nível a maturidade chegou, em muito motivada pela doença de Zé Pedro, uma Hepatite C. “Cada um de nós aprendeu a controlar-se, não houve terapia de grupo. Claro que o facto de ter estado doente serviu de alerta”, diz Zé Pedro. “No passado, havia o deslumbramento da novidade e os excessos, foi uma altura louca. Agora, queremos que tudo saia o melhor possível e que a inconsciência de cada um não impeça o trabalho do grupo”.

 

A verdade é que os Xutos deixaram de ser miúdos para passarem a ser cinquentões e chefes de família. “No início dos Xutos, o Kalú já era casado, o filho mais velho dele tem 33 anos, mas depois foi acontecendo a todos. Até o Zé Pedro, o último dos solteiros de Portugal, cedeu à pressão. Tivemos de reunir e dizer-lhe que ele não podia continuar solteiro!”, brinca Tim.

 

Não foi só o estado civil que mudou no Bilhete de Identidade dos Xutos & Pontapés. Se agora têm a sua Casinha, há 35 anos mal havia dinheiro para comprarem material. “Primeiro que conseguisse arranjar uma guitarra foi um cabo dos trabalhos”, diz João Cabeleira. Os Xutos só tiveram todos os seus próprios instrumentos depois do lançamento de Cerco, em 1985. “Fui eu que fui comprar, com cheques pré-datados. Depois fomos descontando nos concertos. Eu tinha um livrinho onde fazíamos as contas: tanto para descontar no amplificador, outro tanto para a bateria… Dava para isto tudo, ganhávamos uns 20 contos por concerto e ainda nos pagavam o jantar”, recorda Kalú.

 

Hoje os cachets são diferentes, mas os desafios também têm outro tamanho. Têm o tamanho da Meo Arena, onde a 7 de Março darão o concerto comemorativo dos 35 anos dos Xutos & Pontapés. À sua maneira.

 

Retirado do Sol

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