Quarta-feira, 14.12.11
Os passos em Volta

 

Os Passos Em Volta são putos, muito putos, e queriam fazer barulho. Têm três guitarras, um par de berros e a urgência de quem é novo e acredita. “Até Morrer”, o primeiro disco, acaba de nos cair em cima


No início de Julho deste ano fomos a um subúrbio chamado Casal do Chapim, em Odivelas, na cintura externa de Lisboa, para entrevistar um rapaz que acabava de lançar o seu segundo disco na Net, um rapaz que dá pelo nome artístico Cão da Morte. Quando o encontrámos, na esplanada de um centro comercial local, estava acompanhado por um amigo, um tipo largo, barbudo e cabeludo que se apresentou como Éme. O nome verdadeiro do moço era (e é) João Marcelo; Éme é uma espécie de "nom de plume", ou pelo menos o que constava do CD-R que nos entregou com as suas aventuras folk.

Mais tarde, em casa, ouvimos o CD com atenção, concluindo que poderia vir dali uma bela aventura folqueira. Foi preciso menos tempo do que supúnhamos e uma ligeira alteração estética para surgir um disco, um grande disco, com esta voz: afinal, para Marcelo, a relação com a guitarra acústica não era exclusiva; antes a mantinha em paralelo com a eléctrica, que usa no mais estranho e delicioso quinteto indie português, Os Passos Em Volta. Seis meses depois de termos ouvido Éme pela primeira vez, sai o primeiro longa-duração oficial dos Passos, "Até Morrer": canções mordidas por uma voragem eléctrica danada, meia hora de pura vertigem adolescente, três guitarras a dizer que não vão a lado nenhum enquanto não berrarem tudo o que têm para berrar.

"Até Morrer" seria um acontecimento só por si, mas o disco marca também o nascimento de uma editora, a Cafetra Records (Fetra para os amigos), feita pelos fazedores do disco e seus amigos. E como se não bastasse é a primeira aparição em longa-duração das duas meninas das Pega-Monstro, que são dois quintos dos Passos (mais dia, menos dia as Pega estarão a editar o seu primeiro álbum).

"Na Fetra, mais do que ser editora, curtimos ser um gangue", dizia-nos há uns dias João Marcelo, voz e guitarra dos Passos. Com a sua bonomia habitual (há nele qualquer coisa de urso pacato), complementa a frase anterior: "Só que não fazemos mal". Diz "mal" com um tom tão infantil que por segundos pensamos estar a conversar com uma personagem saída do Canal Panda.

 

 

Via Ipsilon



publicado por olhar para o mundo às 22:34 | link do post | comentar

Quarta-feira, 23.03.11

Noutro hemisfério com os !Calhau!

 

Barbas postiças, fatos de leopardo, uma cobra falsa em cima de um tapete vermelho: há dias, os !Calhau! montaram a sua tenda na Feira da Vandoma. Fomos lá conhecer "Quadrologia Pentacónica": mais do que um novo álbum, é um novo mundo

 

A Feira da Vandoma, a maior concentração de vendedores de usados no Porto, está habituada a tudo menos a isto. Um grupo de velhos espreita pela tenda de plástico habitada por um estranho duo (ele de barba frondosa, todo vestido de azul; ela de barba postiça, toda de laranja), entretido a tirar sons de máquinas de proveniência estranha, boa parte delas feitas à mão, a partir de rádios antigos. Um grupo de crianças junta-se ao concerto e fica por ali, imune ao barulho maldito gerado pelos dois barbudos, uma espécie de missa negra. Uma trompete de um intruso desconhecido (um vendedor?) irrompe, por instantes, pelo som.

O duo chama-se !Calhau! e o concerto do último sábado, organizado por Serralves, serviu para antecipar "Quadrologia Pentacónica", o primeiro LP da banda depois de vários CD gravados de forma artesanal e distribuídos em limitadíssimas quantidades.

O interior da tenda dos !Calhau! na Vandoma é todo um programa: há um fato de leopardo pendurado, máscaras, uma cobra falsa reluzente em cima de um tapete vermelho exótico-baratucho, uma peruca pendurada algures. "O fato de leopardo... fui eu que o fiz, cosi-o todo à mão. Isso é importante, a ideia de que há uma força que passa. Aquele objecto é tão importante como a caixa que temos para emitir sons. Verdadeiramente, não há diferença, fazem parte de uma cosmologia em que há vários elementos", garante João Alves, metade dos !Calhau! (a outra metade é Marta Ângela).

O padrão leopardo (ou a "trama" do leopardo, como dizem) é um dos elementos do universo sempre em expansão do grupo fixado no Porto. No Out.Fest de 2010, no Barreiro, apresentaram "O Método do Leopardo". Entretanto, esse projecto (um dos vários que o grupo vai acumulando) passou a chamar-se "Étodo do leopardo". "Desapareceu o M da 'manha'. O método é uma manha que se vai ganhando - para fazer caixas, o que for. O que nos interessa é quando a manha se perde e então tudo surge", explica João, em conversa com o Ípsilon depois do concerto, num restaurante vegetariano na Ribeira do Porto (a conversa decorreu entre dentadas em bifes de seitan e bolos de sementes de papoila, uma iguaria surpreendentemente legal).

É esta intuição, este método sem manha, esta abertura a tudo, que tem levado os !Calhau! (ou Calhau, Von Calhau e outras derivações em torno do pedregulho) a experimentarem múltiplas áreas: artes plásticas, cinema, instalações sonoras, poesia (têm uma obsessão com jogos de palavras) e, claro, concertos e discos. O novo "Quadrologia Pentatónica", lançado pela Rafflesia (editora de Afonso Simões, dos Gala Drop), será apresentado hoje às 21h30 no espaço Kolovrat 79, em Lisboa, com os Aquaparque, que também mostram novo álbum, "Pintura Moderna". Mostra uns !Calhau! com uma relação menos exclusiva com o ruído e a improvisação e exibe um fascínio com a tradição psicadélica mais subterrânea, mas também com exercícios que têm tanto de macabro como de hilariante.

"Quadrologia Pentacónica" mostra também a paixão dos !Calhau! pelos jogos de linguagem, em particular pela leitura de palavras e frases da direita para a esquerda ("lâmina" é "animal" ao contrário, tal como "olá vaca" pode ser transformada em "a cavalo" - dois exemplos ouvidos no disco). "O som está aí. Nós, intuitivamente, por algumas razões, algumas delas totalmente misteriosas, vamos ter com ele. O que fazemos é dialogar [com o som], não somos músicos", explica João Alves. O duo diverte-se a explicar esta fixação. "Há um que não me canso de dizer: ódio do servil / livre só doido. É incrível!", diz Marta. "Começámos com palavras simples e depois foi uma vontade de querer descobrir. 'Marta' ao contrário é 'atram', mas podemos transformá-la em 'trama'. Ou 'Alves' em 'selva'. O étodo do leopardo é que faz isso", ri-se.

Transcendências

Os !Calhau! conheceram-se em 2006, num "workshop" de criação de instrumentos electrónicos. João era o formador, e do grupo inicial de participantes só sobrou Marta. "O pessoal desistia. Mas, na realidade, nós queríamos ficar sozinhos. Estávamos a apaixonar-nos", diz, a sorrir.
Apaixonaram-se, e João, que estava no Porto "por acaso", acabou por ficar a viver na cidade. Do "workshop" saiu o duo de vida curta Electrocutatus Santificatis Rudimentarum Extremis, que haveria de se transformar, em pleno concerto no Cinema Batalha, no Porto, em Calhau. 
Esse primeiro concerto foi registado e logo editado em CD-R. A urgência editorial marcou 2006 e 2007, anos em que o duo lançou vários discos em pequeníssimas quantidades. "Eram experiências nossas. Não sabíamos muito bem para onde é que íamos. Apeteciam-nos ruídos de animais, temos um disco com ruídos de animais; interessava-nos o som de desenhos animados japoneses, experimentámos isso. Gravávamos 'samples' e construíamos, de forma um pouco selvagem, máquinas que levávamos para os concertos. E improvisávamos", conta João.

Desde esses dias que os !Calhau! são mais do que um duo de música experimental (ambos têm, aliás, formação em artes visuais). Interessou-lhes sempre uma dimensão performativa que, ouvindo-os falar, parece do domínio do metafísico. "Sinto que foi sempre uma aventura. Sempre que actuávamos era o limbo de não saber bem o que estava a acontecer. O que é certo é que acontecia qualquer coisa exterior a nós, que nos transcendia e que se manifestava por si", diz Marta.

"Há bocado [no concerto na Feira da Vandoma] uma criança perguntou-me por que é que o sol apareceu. Eu disse: 'Não sei, são coisas que me transcendem'. Eu própria não percebi, mas houve aqui umas forças reunidas que fizeram surgir isso", continua.

A caveira e o corno

Este aspecto cerimonial e místico é fundamental na estética !Calhau!. Nos primeiros concertos, conta Marta, "era tão importante levar uma caveira pesada, de pedra, com areia", como instrumentos. "Ainda a martelámos... estávamos a tentar que saísse som de lá", diz. "Não que a qualidade intrínseca do som fosse boa - era mais o gesto de estar a fazer aquilo", acrescenta João.

Entre os objectos que o grupo transformou em artefactos está um corno encontrado em Lisboa com a inscrição "Luís XV" (objecto que virou o "readymade" oportunamente intitulado "ponta dum corno"). João: "De repente, são estas coisas que nos transmitem as suas próprias forças. E nós trabalhamos a partir disso".

O formato concerto revelou-se mais recompensador para o duo do que o circuito habitual das artes plásticas, que também cruzam. João detecta algum "desapego" nesse circuito: o artista aparece na inauguração e depois não volta a fazer parte da exposição. O palco, em contrapartida, "é um acontecimento" e "remete para a ideia de ritual": "O ritual serve para curar os nossos problemas, livrar-nos de malfeitores", argumenta.

Os concertos permitem-lhes colocarem-se em jogo, em risco. Foi isso que fizeram na Feira da Vandoma, onde podiam ter encontrado um público menos dado às suas aventuras. "Interessa-nos tocar num sítio onde o público dificilmente estará no nosso hemisfério. Aquele momento cristalino em que a pessoa passa para outro hemisfério, a quilómetros de distância daquilo a que está habituada. É isso que me comove na maior parte dos casos", afirma João.

Vão mais longe, ao ponto de querer "sabotar" o seu próprio trabalho: como quando em 2006, no Festival Trama, no Porto, com António Contador, deram um concerto com as mãos presas. A opção de tocar só com os pés reforçou o assumido estatuto de não-músicos, levando-o ao extremo. "Tecnicamente, não tínhamos capacidades - muito menos com os pés. É caricaturar ainda mais essa situação, mas, ao mesmo tempo, esperar que ali surja qualquer coisa. Que nessa fragilidade, nesse empecilho, naquele esquema montado para se autodestruir, possa surgir qualquer coisa", teoriza João.

Mais do que "compor música", os !Calhau! querem "construir um espaço onde possam acontecer coisas", certos de que, por vezes, é na lama que se descobrem as pepitas. Diz João Alves: "Se olharmos para os detalhes do mal feito encontramos coisas que não poderiam nascer de outra forma. Colocarmo-nos nessa situação é muito interessante".

 

retirado de Ipsilon



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Terça-feira, 08.03.11

 

Os Maria Clementina

 

 

Raquel Menina - Voz
Juca Pavico - Guitarra, Voz e Piano
Enrique Mita - Banjo, Baixo e Voz
Manuel de Malta - Bateria, arranjo, Theremin e outros.

Assim de repente, a primeira coisa que importa dizer sobre os Maria Clementina é que eles não existem verdadeiramente (é o que dá serem alter-egos de artistas famosos; se fossem heterónimos, talvez tivessem mais sorte, mas assim...)


Seja como for, reza a história que a banda nasceu, verdadeiramente, na cabeça de Manuel de Malta no exacto momento em que os seus lábios pousaram nos de Raquel Menina pela primeira vez – ocasião em que, em vez dos habituais fogos de artifício, Manuel de Malta diz ter começado a ouvir um conjunto de acordes maiores em progressão cromática tocados por um orgão Casiotone de 1982. “Se um dia tivermos uma filha, chamamos-lhe Maria Clementina” terá dito, embriagado pelos cabelos cor de clementina de Raquel e pelo amor que logo ali sentiu, ainda que sem perceber porque carga de água (ou sumo de clementina) o Casiotone tinha vindo substituir os foguetes do costume. “Uma filha? Primeiro faz-me uma banda, depois logo se vê”, respondeu Raquel Menina a cantar e com o espírito prático que, apesar das aparências, a caracterizava.


E assim fez. 


Hoje os Maria Clementina são uma banda única que, apesar de geograficamente separada, está unida de uma forma cósmica, sendo precisamente assim, à distância, que ensaiam e compõem (ainda que a internet dê uma ajuda grande à cosmicidade), só se juntando verdadeiramente em estúdio para gravar. 


Com um estilo que não hesitam de classificar como ruralo-pop-inconformado, o primeiro single dos Maria Clementina, “Veio a Maria Clementina” foi um prenúncio de algo muito maior (um EP, com 4 músicas, e portanto literalmente maior) e de uma carreira que, ainda que incipiente, muito promete a quem já ouviu (e mesmo a um ou dois que ainda não ouviram, mas que não hesitam dizer que promete na mesma).

 

Retirado do My Space



publicado por olhar para o mundo às 18:05 | link do post | comentar


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