Domingo, 11.11.12
Filipe Mendes começou por ganhar destaque nos Chinchilas
Filipe Mendes começou por ganahr destaque nos Chinchilas (Daniel Mendoça)

Dos concursos "yé-yé" com os Chinchilas às noites com os Ena Pá 2000, Filipe Mendes, guitarrista extraordinário, atravessa a história do rock português. Cinquenta anos de carreira celebrados este sábado no Ritz.

 

Filipe Mendes carrega o seu amplificador para o exterior do edifício. É de válvulas, é precioso e a trepidação causada pela calçada portuguesa pode danificá-lo. Filipe gosta daquele amplificador. Um Budda personalizado: onde se lia o nome da marca, lê-se agora "Mendrix", nome de guerra do guitarrista. Muito cuidado, portanto. Filipe assegura que tudo está bem antes de o passar para a bagageira do carro: os panos dispostos para proteger da turbulência rodoviária, o ângulo a que será necessário erguê-lo para que viaje serenamente para o seu lugar. Filipe Mendes, Phil Mendrix, estava a dias de uma festa em grande: 65 anos de vida, 50 de carreira. Esta noite, no Ritz Clube, em Lisboa (22h30, 10€).

Uma hora antes de o amplificador regressar à bagageira, falava connosco num corredor dos estúdios da Antena 3. Estava ali enquanto estrela convidada do programa Prova Oral, conduzido por Fernando Alvim e Xana Alves. Falávamos do "yé-yé" no Monumental, dos estudos nos EUA, na década de 1960, de Jimi Hendrix ou de Santana. Mas Filipe estava intranquilo. O relógio aproximava-se da hora marcada. "Estou aqui com o coração nas mãos... É que ainda tenho que montar as minhas coisas". O programa estava prestes a arrancar e o amplificador e a guitarra ainda não tinham saído do corredor. E ele precisava da guitarra no estúdio. A entrevista não seria entrevista sem o contributo dela. Filipe Mendes e uma guitarra: assim se pode descrever, resumo resumidíssimo, a história deste homem que celebra esta noite 50 anos de carreira. Em palco, estarão Camané e os Ena Pá 2000, Jorge Palma e Rui Veloso. Os "yé-yé" Charruas e os Chinchilas, a banda onde Mendes se revelou. Virá Sílvio Piroli, seu guitarrista na década passada no Brasil. E muitos mais - talvez Carlos Zíngaro surja a tempo para a jam final. A abrangência dos convidados não deve constituir surpresa. Na verdade, é como se Filipe Mendes estivesse cá desde sempre. Elenquemos: Chinchilas, Heavy Band, Psico, Roxigénio, nos anos 1960, 1970 e 1980. Nos 1990 e seguintes, Ena Pá 2000 e Irmãos Catita, responsáveis pelo novo baptismo enquanto Phil Mendrix. "Não gosto do nome. Até acho pretensioso." Mas a verdade é que, quando o vemos no estúdio da rádio, Mendes é Mendrix realmente. O cabelo grisalho em desalinho ("os meus cabelos têm liberdade de expressão"), a guitarra de motivos florais psicadélicos, o blues hendrixiano: Hey Joe e o Star Spangled Banner imortalizado em palco de Woodstock. Zumbido imponente, este de Filipe Mendes.

O homem e uma guitarra

Gimba, músico e compositor, fundador dos Afonsinhos do Condado e, entre outras coisas, Irmãos Catita: "O Filipe voa. Quando começa a "curtir", acho que levita mesmo". Manuel João Vieira, dos Ena Pá 2000, Irmãos Catita ou Corações de Atum: "O Filipe Mendes ao vivo é explosivo, é o melhor guitarrista português de todos os tempos". Carlos Mendes, companheiro de geração, supra-sumo "yé-yé" nos Sheiks: "Para além de virtuoso, tem um gosto extraordinário no modo como acompanha. É capaz de tornar uma música miserável numa coisa boa". João Paulo Callixto, investigador: "Para além da experimentação que fazia na guitarra, tem uma grande particularidade que o distingue: os estudos nos EUA [em 1967] e o que aprendeu lá, não só nas aulas, mas no quotidiano, que lhe deu uma componente técnica que não existia cá".

É verdade, Filipe andou muito por fora. Lembra-se da infância em Moçambique, quando "adormecia ao som dos batuques e das fogueiras". Dos concertos em Chicago, durante os estudos americanos. Do samba no Brasil, onde viveu na década de 1980 "no mato, a 80 quilómetros de Belo Horizonte". Em 2012, aqui está. O homem é ele e a sua circunstância, escreveu Ortega y Gasset. Filipe Mendes é ele e uma guitarra.

Estávamos em 1970. Gimba tinha dez anos. No Curto-Circuito, sucessor do Zip-Zip, são apresentados os Chinchilas. "Até o meu pai, que me levava aos festivais de jazz, comentou que tinham um grande som". Os Chinchilas eram a banda de Filipe Mendes. Participara nos concursos "yé-yé" do Monumental, em Lisboa, palco privilegiado da micro-revolução rock"n"roll no Portugal do Estado Novo. Em 1970, já tinham editado o single que juntava D. João, pop de comentário social, a Barbarella, onde o psicadelismo se revelava. "O Filipe Mendes era uma lenda. Para mim, era como o McCartney", confessa Gimba. A sua dimensão na cultura popular era, porém, diferente. Os Chinchilas podiam ser "o grupo português mais freak que já existiu", como destaca Manuel João Vieira, mas faziam o circuito de bailes repletos de versões e acabariam, como outros, quando os seus membros foram para o serviço militar. Mas Filipe nunca parou."O rock português dos anos 1960 e 1970 acabou por ficar esquecido por culpa do mediatismo e imediatismo que chegou com o boom dos anos 1980", diz João Paulo Callixto. "Quem não viveu a época esquece-se de que já existia música e um cenário que foi também importante para esse boom. E o Filipe deu a cara. Estava constantemente na estrada". Gravando discos, como o singleUrso Ki, colaborando com músicos, de José Cid a Tonicha, e integrando bandas como a Heavy Band, os Psico ou os Roxigénio do espalha-brasas António Garcez. 

Em 1982, o mito desapareceu. Mudou-se para o Brasil. Dez anos depois, regressou. Refundou os Roxigénio, que viriam a partilhar concertos com os Ena Pá 2000. Manuel João Vieira já conhecia os Chinchilas de D. João e Barbarella - certamente também a famosa versão de I"m a believer, dos Monkees. Pouco depois Filipe Mendes, rebaptizado Phil Mendrix, passava a partilhar o palco com os restantes Ena Pá 2000 e Irmãos Catita. Fazia-se a ponte: à velha guarda sua contemporânea juntavam-se aqueles que descobriam um veterano virtuoso, com um carisma peculiar e um entusiasmo transbordante. 

Esta noite, subirá ao palco para uma noite de celebração. Um par de dias antes, resumia a sua carreira desta forma: "Tentei ser o mais honesto possível. A honestidade que se transforma em espontaneidade. Se conseguir transmitir isso, já se entretém o público". Sessenta e cinco anos de vida, 50 de carreira. A modéstia dos grandes.

 

Noticia do Público



publicado por olhar para o mundo às 21:28 | link do post | comentar


Quer ver a sua banda ou espectáculo divulgados aqui?,
envie um email para: olharparaomundo (arroba) sapo.pt
Se tem alguma letra que eu não tenha encontrado, pode enviar para o mesmo email
mais sobre mim
posts recentes

De Filipe Mendes a Phil M...

arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

tags

todas as tags

links
comentários recentes
Pena estes rapazes não terem mais popularidade. A ...
Nome do autor da letra?Não se escreve?Falta de res...
A LETRA É ASSIM!!!E NÃO ASSADO!!!!MaMãe, tu estás ...
As partes que não consegui perceber estão com reti...
https://www.google.pt/amp/s/www.musixmatch.com/pt/...
Vou adicionar nos meus favoritos, sou brasileira, ...
" Para que o tremoço o almoço e o alvoroço demorem...
Letra e música do SiulProdução do Siul Sotnas e Mi...
que puta de letra fdx
Epá, o que é isto?Borrei-me todo com este "Mal des...
blogs SAPO
subscrever feeds