Terça-feira, 18.06.13

Carminho

Músico brasileiro dedicou a sua coluna semanal de Domingo à cantora portuguesa, que na semana passada actuou no Brasil.

Na semana passada entregaram-se no Rio de Janeiro os Prémios da Música Brasileira, que distinguem o que de melhor se faz na área. Caetano Veloso, Moraes Moreira, Elba Ramalho e os Titãs foram os grandes vencedores da noite, que contou com a actuação de Carminho. A fadista portuguesa não passou despercebida e teve depois direito e uma série de elogios na coluna semanal que Caetano Veloso escreve no Globo. Carminho foi o que de melhor aconteceu nesta noite de prémios, garante o músico brasileiro.

 

A noite foi de homenagem a Tom Jobim (1927-1994), que teve várias músicas interpretadas por nomes bem conhecidas da música brasileira. Gal Costa, Nana Caymmi e Maria Gadú foram apenas algumas das artistas que subiram ao palco da 23ª Gala dos Prémios da Música Brasileira. Mas o destaque,escreve Caetano Veloso, foi sem dúvida Carminho, “prefaciada pela discrição mesoatlântica de António Zambujo, levando o sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque ao lugar alto que lhe é de direito na história da língua portuguesa”. “Foi uma noite de vários aplausos de pé.”

 

Carminho, que já no ano passado esteve no Brasil a gravar a edição brasileira de Alma com Chico Buarque, Milton Nascimento e Nana Caymmi, cantou nesta gala Sabiáuma canção do exílio escrita por Tom Jobim e Chico Buarque em 1968.

 

“Carminho é a mais nova e a mais bela floração desse renascimento do fado entre jovens portugueses”, continua o músico brasileiro, para quem ouvir a fadista “a cantar essa canção de exílio brasileira com voz de quem mal atravessou o oceano para vir aqui nos ensinar tanto, foi de fazer chorar”. “A plateia se levantou crendo ser levada a isso pela exuberância vocal e musical da jovem cantora. Seria um aplauso entusiástico diante de uma interpretação virtuosística. Justo”, continua Caetano Veloso, que além de ter sido premiado na categoria de melhor cantor, venceu ainda o prémio para melhor projecto visual com o seu novo trabalho, Abraçaço.

 

A portuguesa foi por isso um acontecimento ao cantar assim “nosso passarinho (nos dois géneros: 'uma sabiá' e 'o meu sabiá', como o dicionarismo de Tom conversou com o de Chico, trazendo de volta minhas lembranças de uso do nome da ave, em minha Santo Amaro natal, tanto no masculino quanto no feminino) era, no auge do arrebatamento das notas altas com arabescos ibéricos, a consolidação desse mesoatlântico que busco e que Zambujo anunciou”.

 

E para terminar o elogio maior: “Carminho elevou a festa modesta à sua verdadeira altura histórica”.

 

Retirado do Público



publicado por olhar para o mundo às 21:39 | link do post | comentar

Domingo, 05.05.13

Helder Moutinho em fado maior no São Luiz

Sexta-feira, 3 de Maio às 21h, com a sala a três quartos, Helder Moutinho apresentou 1987, ao vivo, em Lisboa, no Teatro Municipal São Luiz. 4,5 estrelas

Helder Moutinho já está fadado para cantar em dias assim. Lembra-se que, noutra vez, estava ele a cantar no CCB e estava o primeiro-ministro a anunciar “coisas horríveis” ao país. Na noite de sexta-feira, 3 de Maio, sucedeu o mesmo. Cantava ele o segundo fado da História de um desencontro quando o país lá fora escutava os fados da austeridade.

 

Mas isso não perturbou, de modo algum, a estreia ao vivo de 1987. Dias depois da confirmação na excelência de Camané (o seu irmão mais velho) num CCB superlotado e na mesma sala do São Luiz onde, na véspera, Anamar assinalara com um concerto enérgico e muito aplaudido o seu regresso aos palcos e aos discos, Helder Moutinho apresentou com sobriedade, elegância e sobretudo um grande espírito fadista, 1987, disco arrojado onde se alinham quatro histórias cada qual composta por quatro fados, todos eles escritos com um empenho e uma emoção que transparecem na música e no canto.

 

O roteiro, distribuído à entrada da sala, com a ficha do espectáculo e a sequência dos fados, foi cumprido à risca. O que quer dizer que os fados foram “baralhados” na sua sequência original, acabando as histórias por darem origem a uma história nova. E essa história é a do canto de Helder, cada vez mais depurado e perto da perfeição. Do início, com Pequeno amor, ao final, com Escrito no destino, temas de João Monge com música de Helder (o primeiro) e do Fado menor (o segundo), ouviu-se a quase totalidade dos temas do disco (só ficou de fora Maria da Mouraria, primeiro tema da história homónima, escrita por Pedro Campos) tendo, pelo meio, A saudade, de Linhares Barbosa e Fontes Rocha, que Helder foi buscar ao seu terceiro disco,Que fado é este que trago? (2008). Foi buscar e bem, porque entre a Noite em claro (da História de um desencontro) e o Luto inteiro (do Luto de uma relação), a saudade foi o sentimento exacto. E ele deu a este fado a alma e a garra que o fado pedia.


De resto, Helder começou a ser aplaudido efusivamente logo ao segundo fado,Vida, ouvindo vários “bravo!” inteiramente merecidos, como em Volta a darou em Já não te espero. Num cenário sóbrio mas engenhoso, com vários patamares (palcos dentro do palco) a sugerirem as “casas” das diferentes histórias, Helder teve o suporte condigno no trabalho dos músicos que o acompanharam, também eles já com trabalhos a solo ou projectos próprios: Ricardo Parreira, na guitarra portuguesa; Marco Oliveira, na viola de fado; e Ciro Bertini, na viola baixo. E que brilharam quando a voz lhes cedeu o lugar.

 

Dificilmente se arranjariam melhores palavras do que aquelas com que Helder fechou o espectáculo, antes de voltar para o encore. Foi João Monge que as escreveu para aquele que para muitos é o fado dos fados, o Menor: “Pus um escrito no destino/ Ninguém o quer habitar/ Só o fado é inquilino/ E paga a renda a chorar”. Que dizer, depois disto?

 

Talvez esperança, ou festa. Porque o fado, do outro lado da tristeza é também vida. E Helder Moutinho, que já recordara o seu pai, Manuel Paiva (que morreu em Agosto de 2012, precisamente quando ele se encontrava a masterizar este disco), homenageou ainda no encore Alfredo Marceneiro, cantando o Fado bailado (que gravara em Luz de Lisboa, de 2004), e Beatriz da Conceição, no Fado da Bia, escrito por Fernando Tordo e que surge no disco como tema extra-histórias, a título de post-scriptum.

 

Se para Helder este 1987 ao vivo foi uma noite de fados com F grande (a austeridade, do lado de fora, escreve-se com outras letras), para o público foi também o memorável momento em que o “irmão do meio” do clã Moutinho se fez maior no palco do fado.

 

Retirado do Público



publicado por olhar para o mundo às 12:56 | link do post | comentar

Quarta-feira, 20.03.13
Deolinda, mundo pequenino

Portugal é ponto de partida mas não necessariamente de chegada, neste novo mundo dos Deolinda

Nada há de acidental no facto de Mundo Pequenino arrancar com um tema chamado Algo novo. Ao dobrar o cabo dos 30 segundos, há uma discreta insinuação percutida que introduz um travo ligeiramente diferente na música dos Deolinda. Embora a dinâmica fundamental das canções do grupo continue entregue ao trio de cordas que cerca a voz de Ana Bacalhau e a levanta em ombros, ao terceiro álbum descobre-se aqui uma corte de novos instrumentos que contribuem para a expansão regrada do universo original.

Depois, a subtileza tem ordem para sair de cena e, ao segundo tema, acabou-se qualquer resíduo cerimonioso: Concordância já arranca com a voz acompanhada pela tarola de Sérgio Nascimento, já há uma secção de sopros mexicana de contrafacção e um parente de cavaquinho à espera de sinal para entrar ao virar da esquina. Esta expansão, no entanto, não se faz à bruta e enquanto necessidade histriónica de afirmação de maturidade. Só que, claramente, a âncora foi levantada e os Deolinda partiram novamente à descoberta. Canção ao Lado e Dois Selos e Um Carimbo, os dois primeiros álbuns, tornaram-se uma espécie de casa dos pais em relação à qual não se cortam totalmente amarras; discos estruturantes na definição de uma identidade, um porto seguro em relação ao qual o quarteto soube criar a devida distância para poder reclamar uma nova autonomia.

 

E sente-se em cada passo de Mundo Pequenino esse entusiasmo de vida nova, de uma liberdade que não se sabia existir, de novos horizontes percorrendo as mesmas ruas, de que a música pode reclamar ser mais do que foi até agora sem ter de trair-se. Essa é mesmo a grande conquista dos Deolinda: há aqui espaço para uma trompete sair desvairada no final de Musiquinha sem criar a sensação de ter entrado no álbum errado, para o piano de Joana Sá desfilar em ritmo de valsinha musette de encontro a Boris Vian no Semáforo da João XXI, para evocar sem medo os Diabo na Cruz no abanar de anca popular-rockeiro de Musiquinha, para criar um improvável eixo Havai-Havana-Ouagadougou-Lisboa tão deliciosamente falso em Seja agora quanto uma grosseira e terna montagem numa aula de iniciação ao Photoshop. E para tirar a boina e saudar, de passagem, Sérgio Godinho e José Afonso em Há-de passar ou celebrar o corpo na sensualidade esfuziante de Doidos.

 

Aliás, por Doidos, Seja agora, Algo novo ou Balanço (uma comovente canção de embalar para tempos de crise) perpassa um sentido festivo/celebratório/esperançoso estampado em relevo em Mundo Pequenino. Apesar do medo do próximo, do retrato do “deixa-andar”, da incomunicabilidade e da manutenção das aparências. Mas nas letras e nas músicas de Pedro da Silva Martins, para os Deolinda, agora Portugal é ponto de partida e não necessariamente de chegada. Não foi, de facto, o mundo que encolheu; foram os Deolinda que cresceram.

 

Retirado do Público



publicado por olhar para o mundo às 21:52 | link do post | comentar


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