Quinta-feira, 14.08.14

 

 

Letra

 

 

Porque nasceste, vives 
Porque vivias cresceste 
Porque cresceste tiveste 
A sorte que não sabias 
Porque estudaste aprendeste 
As coisas de se saber 
E outras inúteis de sobra 
As coisas de se esquecer 
As coisas de se esquecer 

Porque cumpriste fizeste 
O que te mandaram fazer 
Os padres o pai a mãe 
O professor o mais velho 
O sargento o comandante 
O senhorio a porteira 
O ministro o governante 
O cobrador o pedreiro 
- esteja cá na terça-feira! 
O bancário o carpinteiro 
O homem do gás da luz 
Da água do pão do leite 
E acabaste cumprindo 
Cumprindo tudo a preceito 

Encomendaste gravatas 
Fatos novos e sapatos 
Dedicaste-te ao chinquilho 
Talvez ao king 
Fizeste um filho e outro filho 
Nas horas livres, às vezes, 
Em havendo futebol 
Sentiste-te homem de tasca 
Sentiste que eras uma besta 
Mas segunda-feira cedo 
Bem cedo bem matinal 
Te achavas de novo pronto 
Partindo para o mesmo emprego 
Comprando o mesmo jornal 

E sempre todos os dias 
Cobiçaste a secretária 
Do teu chefe o sr. Sousa 
Para à noite pernas moídas 
Tomares o trinta e sete 
O carrinho ou a bicicleta 
E regressando cansado 
Do barulho e da ausência 
Sentires-te reencontrado 
Da solidão na indolência 
De um canapé recostado 
Pijama e televisão 
Aquecedor e decência 
Tudo muito bem ligado 
Tudo muito bem sentado 
Em conforto e concordância 
Em conforto e anuência 

Nas férias grandes redecoraste-te 
Bizarro na concepção 
E arriscaste um figurino 
Foste às compras de calção 
E sorriste aos teus parceiros 
De barraquinha na praia 
E à senhoria vizinha 
Que nunca tirou a saia 
Calculem só os senhores 
Agosto inteiro com saia 

Aturaste a pequenada 
Brigas brirras fraldas caca 
Apreciaste o traseiro 
Da amiga do teu amigo 
Rechonchudinha mulata 
- já é preciso ter lata! 
Viraste a cara em decoro 
Não vão os putos ver isto 
Espalhaste óleo pelas espaldas 
Enquanto a tua mulher 
Um pouco desconfiada 
Desabrida e despeitada 
Te exigiu 
- Ó silva tu muda as fraldas! 

Depois à noite porreiro 
Caminhaste na avenida 
Muito fresco e prazenteiro 
Com a pança bem comida 
Às vezes de um frango inteiro 
Que não és homem dos fracos 
Dos fracos não reza a história 
E o Silva é alguém na vida 
Homem de bem de memória 
Contabilista da firma 
Tal e tal rua da Glória 
- Sempre que quiser já sabe 
É uma casa às suas ordens… 

E depois pelo caminho 
Regressas gritas dás ordens 
Recuas gritas dás ordens 
E ameaças o outro 
Que ginou para este lado 
- se calhar querias coitado! 
E o camião chateado 
De se ver ultrapassado 

Regressas mais bronzeado 
Mais gordo talvez mais magro 
Mais velho um mês e quem sabe 
Mais cansado que à partida 

Regressas ao rame rame 
Enquanto suspirarás 
Todo o ano por um mês 
Todo o mês por outra vida 
Toda a vida por viver 
Algo que te valha a pena 
Ou então tu já nem sentes 
E mentes-te enquanto sentes 
E mentes e já não sentes 
E já não sentes mas mentes 

Ano a ano te esfolharam 
Te roubaram prestações 
Letras fantasmas viagens 
Cromos selos colecções 
Hálito fresco e saudável 
Graxa sabão brilhantina 

Mudaste a cor do salão 
De azul para verde marinho 
Do verde para um branquinho 
E enfim para um castanho 
- o que é que achas? – mais clarinho… 
E ao fim de tanto trocares 
Baralhares e confundires 
Acabas por rebentar 
Evitando pelo menos 
Teres enfim de destruir 
Tudo o que creste ser belo 
Ser lindo ser valioso 
Acabaste confundindo 
Viver com reeducar-te 

Passaste o tempo calcando 
O que podias ter sido tu 
Nu inteiro e pessoal 
Pois que assim afinal 
Foste um entre milhões 
Que de morte natural 
Tem uma cruz lega uns tostões 
E cai podre numa cova 
Em funeral 

Não te ficou nem um gesto 
Que não façam mais milhares 
Não te ficou nem um risco 
Um grito para espalhares 
Não te ficou nem uma sobra 
Uma intenção uma raiva 
Isto é caso pra dizer 
Parvo incapaz e castrado 
Rastejante e tão honrado 
Foste um escravo do dever 
Um pobre mais um na selva 

Repousa em paz bom rapaz. 

“Balada do desespero”, Pedro Barroso (Do lado de cá de mim) 



publicado por olhar para o mundo às 08:46 | link do post | comentar


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