Queres ficar com a televisão Queres ficar com o meu kit de prestidigitação Queres ficar com o solar na Beira Queres a minha velha cafeteira Queres ficar com o Manel João Queres ficar com o meu pobre coração
Tu queres tudo e eu dou-te tudo o que há para dar Levas tudo o que há de mim Só comigo é que não queres ficar
Aos teus pais dou-lhes teto e pão Dou-te a minha irmã para o teu irmão
Queres ficar com a biblioteca Queres ficar com os meus LP's do Zeca Queres ficar com as vizinhas Queres ficar com o porteiro Primas minhas, tu tinhas que gostar do mundo inteiro Queres ficar com os bilhetes do Vinícius Queres as minhas coleções e os meus vícios Queres ficar com a casa numa condição, Ficares também com a adega e a plantação
Já só tenho mais um rim para te emprestar O coração já levaste na pensão alimentar
Tu queres de tudo e eu dou-te tudo e dou-me a Deus Cuido de mim, cuido de ti Cuido dos meus e porque não dos teus.
Primeira noite quente mais uma lambreta na messe Quem é que se apresenta quem vai ver o que acontece Leva a charanga toda que essa bota já mexe é é mexe
As fardas vão de carro e os paisanas seguem a ralé Os outros passaram para além do cais do sodré O chegadinho é tal que o povo canta todo em pé é é em pé:
A polícia fica louca quando a canção cabe na boca
No meio da via bacia com bacia empurra em sintonia com o de trás Apaziguam-se os agentes da paz E a carícia intensifica a cada flash
Vermelho luzia o suor escorria e o povo que assistia já sabia doutra vez: Não dances onde não deves senão comes onde não queres Folga o resto da cidade sem vocês
Tantas forças numa parada paradas para dançar Tantas facas juntas sem queijo sem queijo para mostrar Deixam sempre uns quantos pintelhos pintelhos por rapar Ouve os meus conselhos estou velho e mais velho vou ficar
Sabes que o bigode já não está na moda nem com buços do vinho dá mais música à bófia Chegas para o pagode já não está na hora é mais um prego no preto e um tirinho para a memória dá música à bófia
Um tirinho para a memória dá mais música à bófia
Sacode-a Bota abaixo Um passo em falso e o cinto encaixa Pega Pega a pegar no colega
Não fica confuso por coisa que o valha Tens o teu amigo O amor nunca atrapalha
Ouve o pardalinho no meio da maralha Leva o teu amigo O amor nunca atrapalha
Lua nova e o mar a bater-nos Saliva pela gruta cacimba da boca Peixinhos e pirilampos
Ou no mato uma perna a fechar-se na gola Maminhas maduras que espreitam do meio do nevoeiro
No sofá bom No banho convívio Paleolítico contra o granito ou no tojo ou nas escadas da sé
Maleducados Deitados ao comprido Mais místicos e dísticos Ai ricos vícios por compreender
Depois não digas que não gostas gostas De mais perguntas que respostas gostas Ter as lembranças todas tortas gostas O mar pela frente e a cruz às costas gostas gostas
Na varanda na cara do bairro Coragem estamina franguinhos meloas Mirones e saltimbancos
Ou num barco no mar da escandinávia Uns dedões matulões que espreitam do meio dos marinheiros
Já nem se fala das asneiras com as amigas Tu com os copos e elas perdidas Barrigas que nunca mais vês
Quem diria que havia no meio do risco um abrigo Um consolo que fica contigo e fermenta a valer
Tens o diabo no corpo e a voz da razão (chega de tiros para o ar com pistolas de cartão) Tens liberdades no bolso e algemas na mão (chega de tiros para o ar com pistolas de cartão)
Ai Ximena a vida é quarentena Ai Ximena Ai Ximena é o bicho da gangrena Ai Ximena Ai Ximena a idade do dilema Ai Ximena Ai Ximena afinal foi doce e plena Ai Ximena Ai Ximena
Leva canalha a mão à descoberta o pífaro levanta-te a poeira do caminho Trazes navalha queres guardar a serra mas a farra lá de baixo já te apanha cá no cimo Por todo o lado os fumos das panelas levantam cornucópias como flores o rosmaninho Cabras douradas levam-te pela trela rumo a bombos e farturas de alemanhas Põe mais lenha no cachimbo
Deixei a minha porta aberta "Reich ich bin ein Poltergeist"
A mata aperta a noite escura alguém respira ao teu ouvido Segues alerta ficas à escuta e o teu rebanho cala-se contigo Tresanda a festa tresanda a ditadura O vale é que projecta o teu castigo Não sabem do mal que os espera tens a vista turva Tens cachimbo tens paixão e já sentes a batida no umbigo
Do nada uma fogueira e em volta 124 louras sem vergonha nem saias Deitadas na eira em caminhas de trevos com os relevos às chamas encarnadas Chocalha a tenda E por cima das peitaças pifarinho aprende línguas bárbaras: "Reich ich bin ein Poltergeist"
Suar e lutar nunca pensei como me fica bem Comer e mamar ai nunca pensei como me fica bem Soprar a matar ai ai nunca pensei Como me fica bem sair a pastar
Já o tempo Se habitua A estar alerta Nao há luz Que nao resista A noite cega Já a rosa Perde o cheiro E a cor vermelha Cai a flor Da laranjeira A cova incerta Agua mole Agua bendita Fresca serra Lava a língua Lava a lama Lava a guerra Já o tempo Se acostuma A cova funda Já tem cama E sepultura Toda a terra Nem o voo Do milhano Ao vento leste Nem a rota Da gaivota Ao vento norte Nem toda A força do pano Todo o ano Quebra a proa Do mais forte Nem a morte Já o mundo Se nao lembra
De cantigas Tanta areia Suja tanta Erva daninha A nenhuma Porta aberta Chega a lua Cai a flor Da laranjeira A cova incerta Nem o voo Do milhano Ao vento leste Nem a rota da gaivota ao vento norte Nem toda a força do pano todo o ano Quebra a proa do mais forte nem a morte Entre as vilas E as muralhas Da moirama Sobre a espiga E sobre a palha Que derrama Sobre as ondas Sobre a praia Já o tempo Perde a fala E perde o riso Perde o amor
Zecas e fraternidades a sujar-me o babete Gastámos a flor da vontade a preparar um come back Afogam-se as velhas vaidades em saudades do prec Aos anos que nesta cabeça já não pousa gilete
Ponho o camuflado a render Curiosamente a malta paga para ver Ponho o camuflado a render Curiosamente a malta paga para o vir ver
Guerras e tréguas e gacs ficam escritos na pedra Amordaçam-se as vanguardas pés assentes na berra O touro marra com força o porco fuça na merda Não há pau que de tão grosso não precise de uma esfrega
Ponho o camuflado a render Consequentemente a malta paga para ver Ponho o camuflado a render Aparentemente a malta paga para o vir ver
Acima da média a vida não pára Um beijo na cara e fica bem Esfolados à séria com as facas na brasa O doce da casa e fica bem
Nem danças nem conversas nem cantas o mau e o feio Chegas tarde vens às cegas debicar-nos o peito Já não ladram as feras apertámos-lhes o freio É sempre hora da sossega há sempre tempo para fumeiro
Desculpado o tarrafal resolvida a cena na guiné Largo rumo à catedral para ver outro a sair do pontapé Mais touriga nacional mais medronho mais tempo no café A tv foi ao local para ver outro na ponta do pontapé
"A ovelha bale bale" Bale um balido badalado e bale bale a do lado por sua vez "A ovelha bale bale" Bale um balido embalado e bale bale bale a do lado
Etelvina Com Seis Meses Já Se Tinha De Pé Foi Deixada Num Cinema Depois Da Matinée Com Um Recado Na Lapela Que Dizia Assim: "Quem Tomar Conta De Mim Quem Tomar Conta De Mim Saiba Que Fui Vacinada Saiba Que Sou Malcriada"
Etelvina Com Dezasseis Anos Já Conhecia Todos Os Reformatórios Da Terra Onde Vivia Entregaram-Na A Uma Velha Que Ralhava Assim: "Ai Menina Sem Juízo Nem Mereces Um Sorriso Vais Acabar Num Bueiro Sem Futuro Nem Dinheiro"
Eu Durmo Sozinha À Noite Vou Dormir À Beira Rio À Noite À Noite Acocorada Com O Frio À Noite À Noite
Etelvina Era Da Rua Como Outros São Do Campo Sua Cama Era Um Caixote Sem Paredes Nem Tampo Sua Janela Uma Ponte Que Dizia Assim: "Dentro Das Minhas Cidades Já Não Sei Quem É Ladrão Se Um Que Anda Fora Das Grades Se Outro Que Está Na Prisão"
Etelvina Só Gostava Era De Andar Pela Cidade A Semear Desacatos E A Colher Tempestade A Meter Com Os Ricaços A Dizer Assim: "Você Que Passa De Carro Ferre Aqui A Ver Se Eu Deixo Venha Cá Que Eu Já O Agarro Dou-Lhe Um Pontapé No Queixo"
Eu Durmo Sozinha À Noite ...
Etelvina Já Cansada De Viver Sem Ninguém A Não Ser De Vez Em Quando Amores De Vai E Vem Pôs Um Anúncio No Jornal Que Dizia Assim: "Mulher Desembaraçada Quer Viver Com Alma Irmã De Quem Não Seja Criada De Quem Não Seja Mamã"
Etelvina Já Sabia Que Não Ia Encontrar Nem Um Príncipe Encantado Nem Um Lobo Do Mar Só Alguém Com Quem Pudesse Dizer Assim: "O Amor Já Não É Cego Abre Os Olhinhos À Gente Faz Lutar Com Mais Apego A Quem Quer Vida Diferente"
O Seu Homem Encontrou-O À Noite A Dormir À Beira Rio À Noite À Noite Acocorado Com O Frio À Noite À Noite
Vi-te a trabalhar o dia inteiro construir as cidades pr'ós outros carregar pedras, desperdiçar muita força pra pouco dinheiro Vi-te a trabalhar o dia inteiro Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa [bis] que trazes nos braços que só te serve para obedecer que só te manda obedecer Que força é essa, amigo [bis] que te põe de bem com outros e de mal contigo Que força é essa, amigo [bis 3]
Não me digas que não me compr'endes quando os dias se tornam azedos não me digas que nunca sentiste uma força a crescer-te nos dedos e uma raiva a nascer-te nos dentes Não me digas que não me compr'endes
(Que força...)
(Vi-te a trabalhar...)
Que força é essa [bis] que trazes nos braços que só te serve para obedecer que só te manda obedecer Que força é essa, amigo [bis] que te põe de bem com outros e de mal contigo Que força é essa, amigo [bis 10]
Andava há já vinte dias ao frio, ao vento e à fome às escondidas da sorte um dia fraco, outro forte qu'o dia em que se não come é um dia a menos pr'á morte Um dia fraco, outro forte Um dia fraco, outro forte
Quando um barulho de cama a voltar-se d'impaciente me fez parar de repente era noite e o casarão não tinhas lados nem frente dentro havia luz e pão Me fez parar de repente Me fez parar de repente
Ó da casa, abram-m'a porta fiz as luzes se apagarem cheguei-me mais à janela vi acender-se uma vela passos de mulher andarem e uma mulher muito bela chegou-se mais à janela chegou-se mais à janela
Não tenhas medo, eu não trago nem ódio nem espingardas trago paz numa viola quase que não fui à escola mas aprendi nas estradas o amor que te consola Trago paz numa viola Trago paz numa viola
Meu marido foi pra longe tomar conta das herdades ela disse "Companheiro" eu disse "Vem", ela "Tu primeiro" "Tu que me falas de estradas" "E eu só conheço um carreiro" Ela disse "Companheiro" Ela disse "Companheiro"
A contas com a nossa noite afundados num colchão entre arcas e um reposteiro descobrimos um vulcão era o mês de Fevereiro e o Inverno se fez Verão Descobrimos um vulcão Descobrimos um vulcão
E eu que falava de estradas e só conhecia atalhos e ela a mostrar-me caminhos entre chaminés e orvalhos pela manhã, sem agasalhos voltei a rumos sozinhos E ela a mostrar-me caminhos E ela a mostrar-me caminhos
Andarei mais vinte dias ao frio, ao vento e à fome às escondidas da sorte um dia fraco, outro forte qu'o dia em que se não come é um dia a menos pr'á morte Um dia fraco, outro forte Um dia fraco, outro forte Um dia fraco, outro forte Um dia fraco, outro forte Um dia fraco, outro forte Um dia fraco, outro forte
Paula, vem cá, os teus olhos verdes Guarda-os na viola com quem vou partir Rugas a mais te percorrem quando Pões a memória no que está pra vir Sentas-te e à volta as laranjas abrem Portas que dão para a tua boca E a vida é minha e a tristeza é tua cantas comigo e a canção sai rouca
Trazes em ti mais do que te dei Trazes em ti mais do que te dei Paula até já Paula até já
Paula, vem cá, os teus olhos verdes Guarda-os na viola com quem vou partir Rugas a mais te percorrem quando Pões a memória no que está pra vir
Vais à janela, estou em baixo a olhar Ergues a mão por cima do rosto Fazes de conta que não és daqui Ficas no corpo com o meu fogo posto
Trazes em ti mais do que te dei Trazes em ti mais do que te dei Paula até já Paula até já
Tenho zero safadeza, faço a cama, ponho a mesa p'ra jantar. Nunca fui de ponta-e-mola, nunca me baldei à escola p'ra passear. Sou um puto diferente, até já li o Gil Vicente sem nunca me queixar. Tomo conta das Irmãs e p'las manhãs sou o primeiro a acordar.
Aprendi da maneira complicada a moral aprimorada do Papá. Sei que não posso roubar, nem a dormir nem a sonhar com as alegrias que aqui não há. Vou tentando cuidar de entender a propriedade e porque é que há malta má. Mas se por cada coisa boa vou ficar melhor pessoa porque não ser mau p'ra já?
Às vezes dou por mim com cada mariquice que a família põe-se logo 'abusar. Levar com a sexta mordidela e ser bonzinho p'rá cadela já me está a chatear. Ver a infância passar co'este medo de errar, "olha o exemplo, olhas as Irmãs". Vem a Avó e vem a Tia; todas pregam todo o dia. Não pedi por mais Mamãs.
Porque é que o bom é melhor que o mau? Porque é que o Mal é pior que o Bem? Porque é que é certo ser cara-de-pau, mas está mal ser filho-da-mãe?
Porque é que o bom é melhor que o mau? Porque é que o Mal é pior que o Bem? Porque é que é certo ser cara-de-pau, mas está mal ser filho-da-mãe?
Hoje toca em Coimbra, amanhã em Lisboa, sexta-feira em Castêlo da Maia. Depois, sairá O Fim, o seu último disco antes da sabática sem discos e sem concertos
B Fachada estava em estúdio a dias do primeiro dos três concertos que dará antes de uma sabática que o afastará dos discos e dos palcos durante "um ano, dois no máximo". Já previra esta pausa quando falámos com ele pela primeira vez, há quatro anos, oito discos e uma vida. Hoje toca no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra (21h30), amanhã no B Leza, em Lisboa (22h), e sexta na Tertúlia Castelense, em Castêlo da Maia (23h30). Depois, o recolhimento.
Mas não, isto não será o fim. B Fachada construiu nos últimos cinco anos um percurso impressionante pela obra criada (13 discos) e pela personalidade musical que fomos descobrindo, entre o entusiasmo com a lírica inesperada e as melodias certeiras e o fascínio pelo risco que ia assumindo ao transformar-se de registo a registo: ora puxando da viola braguesa, ora caindo sobre o piano, ora chamando banda para gravar um disco para crianças, ora sendo lo-fi e depois hi-fi. Por fim, no último Criôlo, destaque da produção musical deste ano, apresentou-se como homem-orquestra sintetizada que abraça funanás e memórias da década de 1980 para revelar a Afro-xula em gloriosa dança com o país todo na cabeça - isto sem esquecermos o álbum de revisita a Os Sobreviventes, o disco de estreia de Sérgio Godinho, que assinou com Francisca "Minta" Cortesão e João "Julie & The Carjackers" Correia.
B Fachada está nos estúdios Golden Pony, na zona da Sé, em Lisboa, a mostrar-nos aquilo que será O Fim, o seu último álbum antes da sabática. Decisão tomada e mais que ponderada. Explica: "A paragem faz ainda mais sentido agora, porque os discos foram sendo feitos como uma família, protegiam-se uns aos outros. Ao contrastar muito, estava a justificar o que vinha atrás e ao mesmo tempo a preparar o que se seguiria. Agora, a melhor protecção será não acrescentar mais, não aumentar a entropia. E deixar assentar os discos, que [ao ritmo de dois por ano] foi coisa que nunca aconteceu. Vai-lhes fazer bem a eles e a mim".
Muitos minutos depois, Fachada lançava uma gargalhada. Perguntáramos se estes quase seis anos de carreira não ganharam dimensão de muitos mais, pela produção constante, pelo que mudou desde que o vimos, ainda imberbe musicalmente, a tocar para uma dúzia de pessoas, até este presente em que corre o país de norte a sul, em que recolhe elogios de monstros sagrados como Sérgio Godinho, em que inspira uma nova geração de nomes como Éme ou Pega Monstro? "Estes foram os meus 30 anos de carreira. Já fiz a piada que ia fazer a caixa B Fachada - Seis anos de carreira". Não são apenas seis anos: "É a vida toda".
O Fim, pelas duas canções que ouvimos, às quais faltavam ainda coros e sintetizadores, é um disco descarnado, orgânico. É Fachada a regressar lá atrás, aos tempos de Viola Braguesa, EP de 2008 e aquele que revelou a sua especificidade, excepcionalidade. A regressar, mas diferente. "Quando passei do primeiro B Fachada (2009) para Há Festa na Moradia (2010), fiquei sempre com aquela sensação: "Um dia vou voltar a fazer um como aquele". Mas a verdade é que nunca regresso. Andamos em frente e a música muda de ano para ano, tal como os nossos ouvidos e a nossa sensibilidade".
De novo a viola braguesa
Em O Fim, que será disponibilizado após os três concertos desta semana, primeiro online, mais tarde em edição física, vamos encontrá-lo novamente com uma viola braguesa nos braços. Uma braguesa eléctrica que ouvimos dedilhada e com um som aberto, quase etéreo na sua gentileza. Fachada canta sobre como transformou a braguesa na sua kora (harpa africana) porque misturar é preciso e hoje temos o mundo todo tão próximo. Canta também sobre a impossibilidade de doutrinar gente supostamente séria e importante. São, afinal, meros oficiais de propaganda.
Não lhe interessa criar música que jogue simplesmente com referências musicais, antes música que seja também "um retrato de um tempo e de um espaço". O seu tempo e os seus espaços: o íntimo, que utiliza de forma desarmante, e o público, exposto perante todos. "A minha maior dedicação é o trabalho com a palavra, o registar de uma língua, de uma expressão". Música e palavra reunidas até que ambas sejam parte de um mesmo corpo. Até "que a forma seja também retrato". Em resumo: "Faço com o que tenho".
B Fachada chegou (e participou) no momento em que uma nova geração estreitou novamente laços com a língua, com a tradição como matéria em permanente construção, enfim, com a vontade de cantar de aqui e para aqui. Esse contexto é-lhe indissociável. "Estamos a perder a ingenuidade e percebemos que provincianos somos todos. Os Beatles são provincianos, os Beach Boys são provincianos, o Tom Waits é provinciano e a nossa província é tão província como as outras". Caem essas barreiras e as reacções são, diz, transversais. Sente-se na música, na literatura, no cinema. E dessa consciência brotam formas muito diferentes, conforme a sensibilidade de cada um. Refere o Gonçalo Tocha de É na Terra, não é na Lua e acrescenta: "O [João] Salavisa não vai fazer um road-movie no Texas". Isto para dizer: "Interessa-me muito mais a relevância que tenho para as pessoas que me ouvem do que a relevância que terei em potência para quem não me vai ouvir". A sua relevância, patente na aclamação crítica, patente no sucesso dos concertos e na circulação crescente da sua música no espaço público, cibernético ou não, é hoje evidente.
Cantautor num novo mundo, o da crise da indústria discográfica e do emergir de novas formas de relacionamento com a música, Fachada olha em frente e tudo nele é optimismo. "A queda de estatuto do músico, de que a indústria tanto se queixa, vai continuar até ao nível onde deveria estar. Todas as pessoas que aparecerem a partir de agora já sabem que a música não é um sítio para enriquecer financeiramente. É para enriquecer porque se criou património. Não para gerar património e ser latifundiário, muito menos no século XXI, em que já toda a gente sabe que para haver alguns com muito, tem que haver muitos com pouco".
Agora, porém, é tempo para O Fim de B Fachada. E depois? "Quando voltar, terei praticamente 30 [anos] e espero que esteja, na minha vida, a entrar numa década mais calma, mas estável e, se calhar, mais complexa e com outra profundidade". O frenesi dos últimos anos, confessa, foi "também fruto da "tenrice", de ser novo". Quando regressar, Fachada quer que a música reflicta mais do que o "apetite" da juventude.
Aguardemos. Quando regressar, logo lhe diremos que apetite é aquele. Por agora, fechou o seu primeiro capítulo. Quase seis anos com o tempo de uma carreira inteira.
O ano de 2013 para B Fachada vai ser marcado por um período sabático, uma vontade anunciada pelo próprio músico após aquilo que a promotora dos últimos concertos do artista considera ter sido o ritmo "fulgurante" dos últimos quatro anos.
"O Fim" é o nome da noite de despedida dos concertos por tempo indeterminado e do novo e último conjunto de canções gravado enquanto tal, que será disponibilizado gratuitamente e na internet nos dias seguintes ao concerto.
O músico vai este mês subir ao palco do Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, no dia 19 de dezembro. O último espetáculo está agendado para o dia 21 de dezembro na Tertúlia Castelense, em Castelo da Maia.
Pelo meio, a 20 de dezembro, B Fachada escolhe o B.Leza no Cais do Sodré, em Lisboa, para o fecho de um ciclo. Ainda não é conhecido o nome convidado pelo músico para abrir a noite, mas, de acordo com a promotora, o concerto será constituído por uma primeira parte só com as novas canções.
Os novos temas foram escritos e interpretados num regresso ao formato "voz e viola braguesa", desta feita eletrificada (foi aplicado um pick up ao instrumento acústico) e a passar por um 'delay' de fita analógica.
A segunda parte do concerto vai ter como pano de fundo um 'set' no seu formato eletrónico habitual recente (voz, programações, teclados), a tocar o mais recente disco da sua carreira - "Criôlo" - aliada a uma seleção do seu reportório até hoje.
As portas do B.Leza estarão abertas a partir das 22:00, com bilhetes à venda apenas no local e na própria noite ao preço único de cinco euros, indica a promotora.
Perdes tempo reparar na cara feia que é bonita de alguém De repente até um porco é engraçado também Porque vive, mexe e morre e nasce filho de uma mãe Porque a lógica lá dele não faz sentido a mais ninguém
Perdes tempo de beijinhos a pensar onde meter cada mão Mas o outro só quer mesmo é estar contigo, e então Vê se deixas a ciência que perdeste a noção Uma coisa são instintos outra coisa é intenção
Se vais jogar até morrer habilitas-te a perder Se não há nada para ganhar o que é que tu queres apostar E diz-me lá tu nesta história esperas que tipo de vitória Se vais jogar até morrer habilitas-te a perder Se vais jogar até morrer habilitas-te a perder Se vais jogar até morrer habilitas-te a perder
Perdes tempo a reparar na cara feia que é bonita de alguém De repente até um porco é engraçado também Porque vive, mexe e morre e nasce filho de uma mãe Porque a lógica lá dele não faz sentido a mais ninguém
Vi-te a trabalhar o dia inteiro construir as cidades pr´ós outros carregar pedras, desperdiçar muita força p´ra pouco dinheiro Vi-te a trabalhar o dia inteiro Muita força p´ra pouco dinheiro
Que força é essa que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer que só te manda obedecer Que força é essa, amigo que força é essa, amigo que te põe de bem com outros e de mal contigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo
Não me digas que não me compr´endes quando os dias se tornam azedos não me digas que nunca sentiste uma força a crescer-te nos dedos e uma raiva a nascer-te nos dentes Não me digas que não me compr´endes
(Que força...)
(Vi-te a trabalhar...)
Que força é essa que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer que só te manda obedecer Que força é essa, amigo que força é essa, amigo que te põe de bem com outros e de mal contigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo Que força é essa, amigo
Canção a canção B Fachada remodela os originais do primeiro álbum de Sérgio Godinho
É uma ponte entre dois tempos, uma conversa entre dois compositores: um acenando do passado com o primeiro passo da sua obra, o outro imprimindo-lhe hoje a sua criatividade para lhe dar nova leitura. B Fachada e Sérgio Godinho. Fachada já tinha inscrito em Há Festa na Moradia a referência: Os discos do Sérgio Godinho era uma das canções no alinhamento. Agora, dia 12, a relação estreita-se. Os Sobreviventes, álbum de estreia de Godinho, gravado em 1971 e editado em Portugal no ano seguinte, vai ser revisto canção a canção por B Fachada.
O álbum-espelho de Os Sobreviventes foi gravado pelo autor do recente Criôlo em 2011, após a edição do EPDeus Pátria & Família e imediatamente antes do álbum homónimo saído no final desse ano, e conta com a colaboração de Francisca Cortesão (Minta & The Brook Trout) e de João Correia (baterista dos Julie & The Carjackers). Nele, a julgar pelas canções reveladas à imprensa (as versões de Que força é essa? e de Senhor Marquês), o trio, prosseguindo a saudável ausência de queda para a reverência de Fachada, remodela os originais até que deles nasça um outro corpo: sobressaem harmonias vocais, introduzem-se novos ritmos e Godinho embrenha-se verdadeiramente em território fachadês.
Já sabíamos que aquilo que se canta em Os Sobreviventes nunca caiu no estatuto de peça de época, mas as verdades que encerra ressoam com especial pungência no presente. A revisitação daquele repertório será, portanto, tanto homenagem e celebração quanto alerta.
Dia 10 de Novembro | Centro Cultural Olga Cadaval | 22:00h
Apelidado como o "maior escritor de canções em Português de uma geração", B Fachada já dispensa apresentações.
No seu mais recente disco - Criôlo - não se cansa de nos ir entregando a musica que prece jorrar de dentro de si como uma força que justifica que o apelidem como "maior cantor de uma geração".
Cheia de luz, a musica de B Fachada continua a surpreender em cada passo. O novo concerto do cantautor tem por isso uma bagagem reforçada com o imenso material dos discos anteriores. Mas afinal de contas, como explica em "criôlo", B fachada pode recuar até 98 para traçar um percurso que não tem parado de crescer em termos de reconhecimento e de aplausos.
Tem mais balanço este B Fachada de 2012, cada vez mais um autor de corpo inteiro que a partir dos ecos das obras de Sérgio Godinho, Fausto, ou Zé Mário, traçou a sua própria identidade a traço vincado pela originalidade.
O Misty Fest leva B Fachada ao Centro Cultural Olga Cadaval, dia 10 de Novembro, pelas 22:00h
Se vamos juntos passear O olhar faz parecer vão o que eu disser Se te provoco com o que à noite te fiz, sorris
Já só te falta seres mulher.
Dou-te um abraço e vai-se o embaraço E em pouco espaço vou dar-te aquilo que eu quiser. E eu quero tanto Qual não foi o meu espanto
Pelo teu encanto
Só te falta seres mulher.
Faça eu o que fizer não vou fazer de ti uma mulher.
Eu posso até querer entregar-me Lançar-me a ver aquilo que vier Mas eu gostar da tua masculinidade é maldade, A merda é só não seres mulher.
É que tu tens o charme para poderes virar-me Sabes conquistar-me Dás-me a lascívia de talher como dizer-te então Tens escrito "homem" no coração E infelizmente querido Eu, perdão, só me apaixono por mulher
Faça eu o que fizer não vou fazer de ti uma mulher.
O músico B Fachada inaugura, a 5 de julho, a nova temporada das «Noites de verão», um ciclo de concertos e DJ set no Museu do Chiado, em Lisboa, e de entrada gratuita, informou a promotora Filho Único.
O ciclo acontecerá todas as quintas-feiras de julho e agosto no jardim do Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado.
O primeiro concerto ficará por conta de Bernardo Fachada, músico português que tem editado dois registos por ano e que se prepara para editar álbum novo intitulado »Criôlo», que terá o selo da independente Mbari.
No dia 12 de julho, atua o IKB Ensemble, um coletivo de 14 músicos liderado por Ernesto Rodrigues em torno da música improvisada e esteticamente inspirado no artista plástico Ives Klein.
O músico belga Lieven Martens apresenta-se no Museu do Chiado no dia 19 de julho, enquanto fundador de Dolphins Into The Future, projeto de paisagens sonoras da música new age contemporânea, com recurso a gravações de sons da natureza, como do mar e das aves.
Lieven Martens editou recentemente o álbum «Canto do Arquipélago», gravado e produzido nos Açores e que deverá servir de mote para a performance em Lisboa.
O último concerto de julho, no dia 26, ficará por conta de Éme (nome artístico de João Marcelo), um dos fundadores da editora independente portuguesa Cafetra e do grupo «Os Passos em Volta».
A solo, o músico editou no ano passado o EP de estreia «Passa-se alguma coisa estranha aqui» e este mês o álbum folk pop «Gancia».
Em agosto, todas as atuações serão em formato de DJ set, com os «Slight Delay», formados pelos lisboetas Tiago Miranda e Alcides no dia 2, com o jornalista e crítico de música Rui Miguel Abreu no dia 9, com o vocalista dos 'Pop Dell'Arte', João Peste, no dia 19, e com o guitarrista Norberto Lobo no dia 23, em vésperas de lançar um novo álbum, «Mel Azul».
Tal como abriu, a temporada «Noites de verão» fechará com 'B Fachada' a pôr música no jardim do Museu do Chiado.
Rafael Toral, Sei Miguel, Red Trio, JP Simões, Jorge Lima Barreto e Kimi Djabaté foram alguns dos artistas que atuaram em anos anteriores nesta série de concertos de verão, gratuitos e ao ar livre.
O amor vai percorrer os corredores da Baixa-Chiado PT Bluestation entre os dias 11 e 14 de fevereiro.
Para comemorar a chegada do Dia dos Namorados estão previstas várias iniciativas, como uma festa para solteiros, umconcerto intimista de B Fachada, ‘performances’ de tango, oferta de doces, entre outras. A entrada é livre.
A primeira iniciativa tem lugar às 23:55 de sábado, 11 de fevereiro. Os apresentadores do programa «5 Para a Meia-Noite» (RTP2), Pedro Fernandes e Luísa Barbosa vão convidar amigos e amigas solteiras, respetivamente.
Às cinco para a meia-noite, precisamente, a viagem começa. Duas carruagens do metro de Lisboa vão cruzar-se de forma diferente. Eles chegam do lado do Cais do Sodré (linha verde) e elas chegam do lado dos Restauradores (linha azul). O ponto de encontro é a Baixa-Chiado PT Bluestation, onde os dois comboios vão chegar em simultâneo e homens e mulheres vão conhecer-se.
Mais tarde, a festa continua noite dentro pelo Bairro Alto, em Lisboa, com música e animação.
No dia seguinte, domingo, 12 de fevereiro, pelas 17:00, B Fachada vai tocar ao vivo numa ambiência diferente da habitual. Com nove discos editados desde 2007, B Fachada conquistou o público e a crítica desde o seu primeiro álbum.
Videoclip do tema «Tó-Zé»
Em comunicado enviado ao SAPO Música, a organização adianta que, neste dia específico, vai haver oferta de chá afrodisíaco, «num apelo ao romantismo e à partilha de momentos a dois».
A tarde de segunda-feira, 13, vai ser marcada pela distribuição de rebuçados, pipocas e algodão doce a todos aqueles que passarem pela Baixa-Chiado PT Bluestation, entre as 16:00 e as 20:00.
Por fim, e já na terça-feira de de São Valentim, violinistas e violoncelistas enchem a estação com música romântica e vários pares de bailarinos vão dançar o tango. Numa interação constante com os utentes da estação, músicos e bailarinos vão tornar este dia num dos mais românticos na Baixa-Chiado PT Bluestation.
Quer ver a sua banda ou espectáculo divulgados aqui?, envie um email para: olharparaomundo (arroba) sapo.pt
Se tem alguma letra que eu não tenha encontrado, pode enviar para o mesmo email