Terça-feira, 25 de Junho de 2013

Uma família por conta própria

A partir de Braga, a PAD está a fazer algo raro em Portugal: lançar discos com regularidade. Só este ano lançou cinco, dos Dear Telephone a The Astroboy.

 

Está um homem por trás de sintetizadores e maquinaria a pintar as paisagens amplas do seu projecto The Astroboy, devedoras da música cósmica alemã dos anos 1970. É Luís Fernandes, que há-de regressar ao palco para integrar a formação dos La La La Ressonance, paisagistas jazzísticos, com os quais colabora Blac Koyote, projecto de electrónica desafiante. Luís há-de voltar ali com os mais conhecidos Peixe:Avião, autores de pop-rock com ambições progressivas. No mesmo palco, o guitarrista André Covas, também dos Peixe:Avião, juntou-se aos Long Way to Alaska, autores de canções indie de bons sentimentos.

 

Quem é esta gente que partilha projectos tão diferentes e que o mostrou num dos palcos do último Serralves em Festa, no Porto? São artistas da editora PAD, de Braga, que faz algo de raro por cá: lança discos com regularidade. São já 20, desde 2010, e só este ano já são cinco (de Dear Telephone, Long Way to Alaska, Stereoboy, The Astroboy e Tar Feather).

 

A editora surgiu em 2010 para responder a uma necessidade concreta: editarMadrugada, o segundo álbum dos Peixe:Avião (três membros do grupo - Luís Fernandes, André Covas e Pedro Oliveira - integram o núcleo duro da editora). Não encontraram no mercado nada que os satisfizesse: não queriam ser "uma banda de fundo de catálogo de uma major", não queriam "entrar para uma coisa sem a organização" que desejam, explica Pedro Oliveira. Queriam, por exemplo, "ter controlo" sobre o álbum para, por exemplo, poder oferecer temas para download gratuito.

 

Avançaram por conta própria: nascia a PAD. "A melhor decisão foi sermos donos de nós mesmos. O Madrugada correu muito bem", conta Pedro, satisfeito pelo catálogo já alcançado. "Aos olhos de muitas pessoas passará despercebido", mas "já é alguma coisa, já é considerável", sublinha.

Entusiasmados, quiseram aplicar os ensinamentos colhidos na experiência a outros projectos, dos rockers Smix Smox Smux a Old Jerusalem. Regra geral, os artistas pagam a produção física dos discos, a PAD assegura os outros serviços (do design à marcação de concertos). As receitas das vendas ficam com os criadores. "Não ganhamos dinheiro com as edições", afirma Luís. "As edições são, de facto, de autor porque não temos os direitos [de autor] de nenhuma", esclarece André.

 

Efervescência


Musicalmente, não há uma estética única na PAD. "O único ponto de referência que tínhamos era mais social: tem sido tudo edição de bandas nossas ou de amigos", refere André. Ainda assim, há algumas cumplicidades estéticas que ajudam a definir a editora.

 

Em 2013, com reduzidas vendas de discos, uma editora adquire novos papéis e um deles é ser um filtro, uma marca de confiança, uma forma de encontrar música relevante entre milhares de edições (nunca foi tão fácil gravar e editar um disco). "As editoras grandes são uma espécie de banco: são lóbi e o peso de dinheiro. Com as editoras mais pequenas, há pessoas que seguem uma editora e quase confiam em todas as edições", diz André.

 

Para o Serralves em Festa do ano passado idealizaram uma sequência de concertos sem intervalos - o fim de um concerto seria o início do próximo. "Acaba por mostrar a nossa filosofia, que é a interacção que há entre todos os intervenientes da PAD", afirma Pedro. A chuva impediu a concretização da ideia, mas o plano serviu para comprovar uma tese: é esta "interactividade que acaba por unificar aquilo que esteticamente pode não parecer tão unificado".

 

A interactividade pode também tomar a forma de um diálogo entre diferentes gerações artísticas de Braga. No catálogo da PAD, há colaborações entre Luís Fernandes e Miguel Pedro, dos Mão Morta - juntos formam os Palmer Eldritch. A editora faz parte da cooperativa AuAuFeioMau, que alberga projectos dos Mão Morta, como a editora Cobra, e o festival Semibreve, focado nas artes digitais e na música electrónica. Foi no Semibreve que Luís Fernandes, parte da organização, conheceu Hans-Joachim Roedelius, herói pessoal e lenda do krautrock. Daí nasceu a participação dos Qluster, banda de Roedelius, no novo álbum de The Astroboy, Flow My Tears.

 

O amplo catálogo da PAD indicia uma efervescência criativa em Portugal que contrasta com a propalada decadência da indústria fonográfica. "Fazem-se mais discos agora, toda a gente que eu conheço está sempre a fazer discos", nota Luís. Pedro enquadra a questão: "Cada vez mais podes fazer as coisas em tua casa e fazer tudo sem dinheiro e praticamente só com a vontade, mas é cada vez mais difícil chamares a atenção."

 

Uma das formas de chamar a atenção é fazer de cada disco um objecto desejável. É o caso do novo registo de The Astroboy (a primeira edição da Easy Pieces, uma subsidiária criada para ajudar a internacionalizar os projectos de música electrónica da PAD. A segunda, também acabada de editar, é Heavy Metals, de Tar Feather, música electrónica de Diogo Tudela): uma edição limitada a 100 cópias, todas com artwork diferente. "Cada vez mais menos cópias e mais apelativas" é o caminho, revela Pedro. É assim a PAD, "uma alfaiataria de discos".

 

Retirado do Público



publicado por olhar para o mundo às 12:56 | link do post | comentar

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