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A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

Pedro Barroso


Memória do futuro...


 Subir a um palco é uma experiencia que, na infância, enche-nos de surpresa e encanto; na juventude, enche-nos de vaidade; e que, com o andar dos tempos e o amadurecer do tempo e de nós próprios, nos enche de dúvidas e emoção.


 Ao fim de mais de quarenta anos a reunir música e palavras, calculam facilmente o mundo de memórias repartidas, o número de peripécias sentidas e o profundo acervo de experiências humanas acumuladas.


 Corri um país real e fantástico; nos perfumes e sabores; nas paisagens e gentes; nos abraços recebidos e nas histórias de uma humanidade convivida.


 Foi um mundo profundamente português, embora derramado por vezes, por países de lonjura e extravagância.


 Onde representei, pobre de mim, o alento de uma saudade trazida na viola, uma referência doce da pátria mãe deixada há tanto tempo, um relembrar de sons e palavras em concertos que nunca poderei esquecer. Esses, existem hoje apenas na minha memória e dos que lá estiveram comigo. E é pena. Porque muitas vezes foram noites de maravilha.


 Depois comecei a compreender que, por cada mil que ali estavam comigo, numa qualquer dessas noites, haveria decerto muitos mil que gostavam de ter estado e não puderam.


 De facto, nunca em todo este tempo, tinha gravado grande testemunho dessas noites fascinantes e prenhes de emoções.


 E era injusto.


 Apontamentos aqui e ali, programas como convidado, actuações maiores ou mais curtas, reportagens, muito bem, mas raramente um testemunho assim, ao vivo, do que se diz e se sente num Concerto maior, actual, com gente dentro.


 Gente que gosta de nós e nos retribui o suor e a entrega. Como aqui, desta vez, foi possível.


 Com efeito, nunca tal me tinha preocupado sobremaneira. Mas com o passar da idade - e a responsabilidade que advém de sabermos quanto somos breves e efémeros nestas coisas da arte e do viver - creio que este Rivoli pleno de gente mereceu a distinção, e fica assim para a historia de um sentir e de um pulsar colectivo, que representa, de facto, uma “Memória para o futuro”. Agradeço ao Porto Canal pela iniciativa de filmar o Concerto; à RDP, que o gravou; e à Ovação por ter entendido, julgo eu, o testemunho intemporal que representa.


 A todos os músicos envolvidos, ao público atento e amigo que tornou essa noite especial. E a todos os que gostam, entendem e saboreiam o que faço, contra a corrente do que se consome e pandemicamente se alastrou pelo mundo da música e não só.
 Eis a prova provada de que afinal, existo.


 Para consumo apaixonado de viveres próprios e alheios. Truculências demais, talvez, mas emoção em estado puro, exactamente tal e qual como vo-la gosto de oferecer. E que, desta vez, extravasou da noite bonita que vivemos.

 Aqui deixo, pois, um abraço imenso a todos os que possa estar a esquecer e que de algum modo tenham ajudado a tornar esta edição possível.

Pedro Barroso


Menina dos Olhos de água:

 

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