Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

Luís Tinoco lança disco na prestigiada Naxos

É o primeiro compositor português vivo a ver o seu trabalho divulgado na maior chancela mundial de música erudita. O disco foi financiado através do crowdfunding.

 

O músico Luís Tinoco acabou de lançar na editora Naxos o disco Round Time, inteiramente dedicado a peças orquestrais, tornando-se assim, aos 43 anos, o primeiro compositor português vivo a ver o seu trabalho divulgado na maior chancela mundial de música erudita. O álbum, que foi apresentado no dia 9 na Fundação Gulbenkian, abre com o tema que dá nome ao disco, uma composição escrita para orquestra sinfónica e que resultou de uma encomenda que lhe foi feita em 2002 pela Orquestra Nacional do Porto

 

As três restantes composições são mais recentes e foram todas escritas para soprano e orquestra, tendo ainda em comum o facto de adaptarem textos literários. As gravações para este disco decorreram há já quase um ano, em Junho de 2012, no grande auditório da Gulbenkian, com a orquestra da fundação, dirigida pelo maestro norte-americano David Alan Miller, e a participação das solistas Ana Quintans, Raquel Camarinha e Yeere Suh.

 

 

From the Depth of Distance intercala fragmentos da Ode Marítima, de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, e do poema Passage to India, de Walt Whitman, com a solista Ana Quintans a cantar alternadamente em português e inglês. O tema é de 2008 e resultou de uma encomenda conjunta da Orquestra Sinfónica de Albany, nos Estados Unidos, cujo maestro titular é David Alan Miller, e da Orquestra do Algarve. Miller, que preparava uma temporada consagrada ao tópico da viagem, pedira a Tinoco uma obra que tratasse o tema das navegações portuguesas. “Optei por textos que têm mais a ver com um descobrimento interior”, explicou o músico ao PÚBLICO.

 

Search Songs, de que aqui apresentamos o terceiro andamento, Sunset Song, reúne vários poemas de um heterónimo que Pessoa criou ainda na adolescência, Alexandre Search, autor de muitos poemas em língua inglesa. Luís Tinoco escreveu a peça – estreada em 2007 no Festival do Estoril, com interpretação da Orquestra Filarmónica de Londres – para a soprano coreana Yeere Suh, e essa foi uma das razões, diz, que o levou a centrar-se neste heterónimo de Pessoa, que tinha a vantagem de ser um autor português com textos em inglês, mais facilmente interpretáveis pela cantora coreana. “Mas também me interessou por não ser um dos grandes heterónimos da maturidade de Pessoa”, acrescenta o compositor. “É um autor que ainda está à procura, que pesquisa, o que permite a leitura de que estas são, quer para o poeta, quer para o autor da música, canções de procura de uma voz própria”.

 

A quarta e última composição do disco, Canções do Sonhador Solitário (Songs from The Solitary Dreamer) é bastante recente e partiu de uma encomenda do Serviço Educativo da Casa da Música. Trata-se originalmente de uma pequena cantata baseada num conto de Almeida Faria, que o próprio romancista transformou num libreto. A peça estreou-se em Dezembro de 2011 na Casa da Música, mas a versão agora gravada inclui apenas as árias da cantata, isoladas do resto, já que seria inviável incluir no disco a obra integral, que dura 40 minutos.

 

Formado pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde hoje é professor, e pela Royal Academy of Music, em Londres, Luís Tinoco começou por gravar, em Inglaterra, um primeiro disco de música de câmara, mas, nos últimos anos, tem vindo a escrever sobretudo música orquestral. “O pontapé de saída neste circuito da música sinfónica”, diz, “foi Round Time”, uma obra que alcançou considerável sucesso e que tem sido frequentemente interpretada dentro e fora do país.

 

Além das obras agora reunidas neste álbum, o compositor é autor de duas peças de maior dimensão: Evil Machines, com libreto de Terry Jones, dos Monty Python, que se estreou em 2008 no Teatro de São Luiz e que, diz Tinoco, “está a meio caminho entre o musical e a ópera”, e Paint Me, uma ópera que compôs em 2010 para a Culturgeste e que teve encenação de Rui Horta.

 

Apesar deste percurso, não lhe foi nada fácil conseguir gravar este disco. “Andei desde 2005 ou 2006 a tentar arranjar apoios e a bater a portas sem sucesso”, conta. Já em desespero de causa, recorreu mesmo ao chamadocrowdfunding, criando uma plataforma na internet para eventuais financiadores. Quando propõe à Gulbenkian a gravação do disco já tem garantido o interesse da Naxos, mas mesmo assim teve ainda de esperar dois anos até ver o disco finalmente cá fora.

 

A porta da Naxos foi-lhe aberta pelo maestro David Allen Miller, que gravara para a chancela um disco com temas de compositores americanos e que propôs o nome do seu amigo português.

 

A Naxos, explica Tinoco, não financia a produção da gravação – “as viagens de avião dos músicos, o material, os engenheiros de som, e todas essas coisas” –, mas, em compensação, “quando o master está pronto, são muito bons a distribuir o disco internacionalmente, quer em lojas físicas, quer online, e conseguem ter preços muito competitivos”. Round Time custa cerca de seis euros (há variações ligeiras consoante os pontos de venda) e pode ser adquirido na Gulbenkian, nas Fnac’s, nas lojas de discos e também online.

 

 

Retirado do Público



publicado por olhar para o mundo às 12:07 | link do post | comentar

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