Sábado, 6 de Abril de 2013
Luísa Sobral - Há um mundo para ela

 

 

Em dois anos, Luísa Sobral passou de uma curiosa versão portuguesa de Norah Jones para autora ao serviço de Ana Moura e Marco Rodrigues. Antes de lançar There"s a Flower in My Room fez-se também ouvir em primeiras partes de Melody Gardot e no programa de Jools Holland.

 

 

 

Por estes dias, Luísa Sobral já precisou de ser sossegada, de alguém que lhe garantisse que não é fenómeno raro acabar de gravar um álbum com 17 canções novas e ver a vontade de pegar na guitarra diminuída, perceber que a fonte de onde saíam canções em atropelo parece agora apenas gotejar. Desde que apareceu, há dois anos, com o disco de estreia The Cherry on My Cake, Luísa não tinha parado. E mostrara desde logo uma lucidez pouco habitual em quem inicia a sua carreira - sabia antecipadamente que toda a gente lhe chamaria "Norah Jones portuguesa" mas nem por isso se mostrava incomodada. A comparação era inevitável e a cantora não fingia que fosse acidental ou inesperada. Confiava que as canções haviam de valer mais do que isso e que o seu percurso seria mais de autora do que de imitadora. E para que a espessura da sua personalidade musical não escapasse ao público - que acorrera com entusiasmo à sua obra -, ia-lhe adoçando os ouvidos com versões de Green Day, Tom Waits, Joni Mitchell, Britney Spears ou Romana. Homenagens, sim, mas também forma de deixar de limpar a cabeça de canções que não lhe largavam o espírito dias a fio.

 

Em Dezembro do ano passado, o frémito da sua actividade levá-la-ia a juntar uma série de cantoras para a gravação colectiva de River, de Joni Mitchell. Mas aí a ideia era outra. Circulando livremente entre as tradições pop e jazz, sem se comprometer com nenhuma nem fechar as portas à outra, quis unir dois mundos que em si coexistem sem atrito, com uma naturalidade impossível de encenar, mas que lá fora costumam olhar-se com desconfiança - ser pop é vender a alma ao diabo, ser jazz é achar que se vive num plano superior. Luísa quis acabar com esse desconforto inconfesso de parte a parte. Primeiro, organizou um jantar, depois pôs todas aquelas vozes (Ana Moura, Rita Redshoes, Márcia, Francisca Cortesão, Selma Uamusse, Marta Hugon, Sofia Vitória ou Joana Machado) a partilhar uma mesma música - Mitchell, lembre-se, é mulher da folk, mas também de uma marcante colaboração com Charles Mingus.

 

"Agora", diz Luísa Sobral voltando à desaceleração da sua produtividade, "chamo àquilo que se está a passar na minha vida uma depressão pós-parto". "Tenho andado pouco inspirada durante os últimos tempos, mas acho que é também porque ainda não tenho espaço". Sabe que não há qualquer razão para dramatizar, mas, por via das dúvidas, planeia mudar-se durante um mês, em Setembro, para Paris. "Gostava de ter um mês só para me concentrar em viver coisas diferentes, ter estímulos diferentes, conhecer pessoas diferentes e compor. Obviamente que o próximo disco só será daqui a uns dois anos, mas é importante sentir que estou sempre a fazer qualquer coisa".

 

O terror da vulgaridade


O terceiro álbum está ainda muito longe de qualquer remota concretização, mas há uma ideia que sabe querer concretizar de futuro. Presa a um jogo entre melodias melancólicas desafiadas por ritmos vivazes - "sempre tentei encontrar beleza no triste, talvez para contrabalançar a minha personalidade", acredita -, Luísa diz querer descobrir forma de escrever uma canção que possa reclamar-se "feliz", tendo para isso de ultrapassar o "medo de que caia no básico, óbvio e previsível". Do ridículo, por outro lado, diz não ter qualquer medo. O que a apavora verdadeiramente é a vulgaridade.

 

Tudo isto faz especial sentido em alguém que demonstra uma segurança total nas suas canções. Luísa Sobral não é insegura nem fabrica essa imagem em benefício de pontos adicionais de charme. Também por isso, com apenas um álbum na algibeira, foi convidada em 2012 a dirigir um workshop de escrita de canções na Universidade Lusíada. "Não acho que seja genial a escrever", frisa, "mas também tive aulas e aprendi muitas ferramentas que posso passar". E para que as costuras das suas canções fossem mais visíveis, mostrou, por exemplo, uma gravação embrionária de Not There Yet, single do primeiro álbum, em toda a sua fragilidade, num esboço ao piano, a tentar descobrir acordes, a falhar, a rir-se dos pequenos falhanços e a corrigir o curso da canção. "Deu para mostrar que as canções não começam logo prontas, podem mesmo ser horríveis e transformar-se em algo melhor".

 

Esta experiência autoral, no entanto, já não se resume apenas à sua obra. Ela, que ambiciona também alcançar reconhecimento enquanto letrista, foi já sugada pelo universo mais ou menos fadista, tendo escrito a música para um tema de Ana Moura e letras para Marco Rodrigues e António Zambujo. Apesar de ter usado um poema do seu tio-avô, que escrevia para fado, e de ter no seu pai "um obcecado pela Amália", a sua ligação ao fado é não mais do que circunstancial. Vai ouvir de vez em quando, admite que o registo fadista não lhe sai bem, tem aprendido mais alguma coisa graças à amizade com Zambujo.

 

Mas muito mais do que Amália, as suas referências são Ella Fitzgerald, Billie Holiday ou até Édith Piaf. Pelo que a sua presença no prestigiado programa de música ao vivo da BBC Later... With Jools Holland foi especialmente surpreendente e reveladora de um potencial internacional que a música portuguesa só costuma conhecer na ligação ao mercado da world music. Depois de assistir a um concerto de Luísa no Algarve, a produção do programa chamou-a, aproveitando uma deslocação da cantora a Inglaterra, para actuar na primeira parte de Melody Gardot. "Na noite anterior não dormi nada", recorda. "Mas demoro a processar estas coisas, o que até é saudável porque não fico ansiosa". Agora, com There"s a Flower in My Bedroom, estão abertas as portas para o regresso ao programa de Holland, ao mesmo tempo que aposta forte no mercado anglófono. "O que às vezes funciona lá fora é não ser uma coisa nem outra. Tanto posso tocar num festival indie como num festival jazz".

 

A verdadeira ameaça à carreira de Luísa Sobral prende-se precisamente com isto: a possível tendência para a dispersão. Há dois anos, dizia que tinha como objectivo fundamental investir na guitarra. Mas depois apareceu uma harpa, pôs-se a estudar piano, caiu-lhe um guitalele nos braços, foi convidada a escrever para outros e tudo é uma excitação. O bom é que isto invade depois a sua música, nunca resolvendo esta saudável indecisão entre pop e jazz.

 

Noticia do Público



publicado por olhar para o mundo às 11:57 | link do post | comentar

Quer ver a sua banda ou espectáculo divulgados aqui?,
envie um email para: olharparaomundo (arroba) sapo.pt
Se tem alguma letra que eu não tenha encontrado, pode enviar para o mesmo email
mais sobre mim

posts recentes

O Blog Mudou de casa

Fado Insulano - José Mede...

Cantiga da terra - Zeca M...

"Aprendiz de Feiticeiro -...

Milhafre das Ilhas - Luis...

Sara Tavares - Ter Peito ...

Banho Maria - Não Há Amor...

Sara Tavares - Fitxadu ft...

JUNGLE EVA - TT SYNDICATE

João Granola estreia vide...

arquivos

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

tags

todas as tags

links
comentários recentes
Vou adicionar nos meus favoritos, sou brasileira, ...
" Para que o tremoço o almoço e o alvoroço demorem...
Letra e música do SiulProdução do Siul Sotnas e Mi...
que puta de letra fdx
Epá, o que é isto?Borrei-me todo com este "Mal des...
OUÇA A NOSSA RADIO EM https://goo.gl/ouzpk3
Eu queria a letra dessa música
YK é Noizz Kappa, Halloween a grande Alma, melhor ...
Eu adoro esta musica muitos deijos.
Mesmo Shakespere n escreveria tão bonito assim sob...
Posts mais comentados
blogs SAPO
subscrever feeds