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A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

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Gisela João - A miúda que todos começam a conhecer
Há um nome novo a dar que falar no fado. A miúda do Norte, Gisela João, já canta há largos anos, primeiro em Barcelos e agora em Lisboa, no Sr. Vinho. No Lux cantou ‘Os Vampiros’ ao lado de Nicolas Jaar e em Março sobe ao palco do CCB 
É desarmante. Pequenina, mas grande. Eléctrica, mas serena. «Um cavalo bravo», diz o músico Hélder Moutinho. «A única mulher que conheço que quando tira os sapatos fica mais alta», acrescenta o realizador João Botelho. Ela, minhota de 29 anos, só quer cantar. E dançar. E viver. Quer ser uma velha gaiteira, mas a avó diz que isso já ela é.

O nome de Gisela João, que todos os dias canta no Sr. Vinho, começou a sair do circuito mais fechado do fado na véspera da manifestação de 15 de Setembro, quando foi convidada para cantar com Nicolas Jaar, no Lux, ‘Os Vampiros’, de Zeca Afonso. Era a miúda do Norte que ninguém conhecia. Nem o próprio músico. «Só nos conhecemos no dia do concerto. Ele escolheu-me através do João [Botelho] e do Manuel [Reis]». Semanas mais tarde, repetiu a canção, desta vez acompanhada por Norberto Lobo. Mais uma vez, no meio de nomes como Janita Salomé ou Maria do Céu Guerra, era a miúda que ninguém conhecia.

 

Na noite de 21 de Novembro, a data do anunciado fim do mundo, voltou a subir ao palco do Lux, no primeiro concerto a solo em terras lusas. Um palco inusitado para uma fadista, mas não para Gisela João. «Desde que comecei a sair à noite que consumo música electrónica. Canto fado desde criança, mas o meu outro lado é este. E sempre disse que um dia ia cantar no Lux». Não encheu a sala, mas deu tudo o que tem. Uma voz possante, uma forma de interpretar apaixonada. «Tenho de sentir para fazer os outros sentirem. E gosto de cantar temas à volta do amor». Já escreveu algumas canções, mas tem vergonha de as cantar. Em mente leva sempre a ideia de levar o fado a quem não o estima. «Para mim o desafio foi sempre fazer que quem não ouve fado se apaixone pelo género. As pessoas associam o fado à tristeza, mas não é por cantar fado que tenho de ser uma pessoa taciturna. O fado não é triste, é intenso».

 

A verdade é que a miúda que ninguém conhecia, começa a ser conhecida. Em Março vai subir ao palco do CCB e Camané apontou-a como o nome a seguir em 2013. Ela baixa os olhos perante o que aí vem. «As expectativas são uma coisa muito pesada… A minha avó sempre me disse: ‘És muito faladeira, fica caladinha. Fazes e depois é que dizes que fizeste’. Se não falarem de mim estou mais descansada para ir fazendo as minhas coisas». Como o muito aguardado disco de estreia, esperado para 2013.

 

Que Deus lhe perdoe


Gisela João gosta de acreditar que nascemos predestinados. No seu caso, para cantar o fado. Foi preciso ouvir Amália para descobrir este destino. «Tenho seis irmãos mais novos e desde a primária que tomei conta deles. Estava sempre a rir, mas às vezes estava triste porque também queria brincar. Um dia estava a lavar a loiça e ouvi na rádio ‘Que Deus me Perdoe’, da Amália. Aquilo dizia: ‘Se a minha alma fechada/ Se pudesse mostrar/ E o que eu sofro calada/ Se pudesse contar/ Toda a gente veria/ Quanto sou desgraçada/ Quanto finjo alegria/ Quanto choro a cantar...’. E pensei: esta sou eu». Comprou uma cassete de Amália e, fechada no quarto, cantava. Quando uma senhora de Barcelos começou a organizar uma espécie de Mini Chuva de Estrelas local, Gisela libertou-se das vergonhas: «Roubava os sapatos da minha avó, fazia caracóis, pintava os lábios de vermelho e ia. Mas nunca ganhava. Os miúdos diziam que eu cantava música de velhos».

 

Mas depois chegou a adolescência. E as rebeldias da idade não ligavam com a solenidade do fado. Começou a sair à noite e descobriu a electrónica. «Lembro-me do Plastikman, Jeff Miles, Laurent Garnier… Nessa altura comecei a ter vergonha de cantar e reneguei o fado».

 

Foi a inauguração de uma casa de fados em Barcelos que a fez regressar à canção. Começou a trabalhar às sextas e sábados. «Ganhava dez contos por noite que gastava a sair e em compras». Ali esteve dois anos, altura em que se mudou para o Porto. De dia trabalhava na loja de uma amiga e à noite cantava no Fado, em Miragaia. Pelo meio estudava Design de Moda, mas os estudos ficaram pelo caminho.

 

Foi com os Atlanthida, numa viagem à Dinamarca, que reencontrou Hélder Moutinho – que conhecera em tempos. A dupla não mais perdeu o contacto. Mas havia a distância entre Lisboa e Porto que dificultava qualquer projecto. Numa visita à capital, Hélder, que há muito a tentava convencer a trocar o Norte pelo Sul, levou-a ao Sr. Vinho, onde Maria da Fé lhe disse que podia ficar a trabalhar. Mudou-se para «uma casa mínima na Mouraria». O primeiro ano foi muito duro: «Chorei todos os dias».

 

Mas Gisela encontrou o seu refúgio e fez amizades. João Botelho, Manuel Reis ou até a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker ajudaram-na a crescer. «Cantei para ela, ela dançou para mim. E ficámos amigas. Ainda a semana passada me ligou e me disse que se preocupava muito comigo porque se revia em mim quando tinha a minha idade». É o seu jeito gaiteiro de ser que desarma quem a conhece. «Para mim são pessoas normais. Ainda há uns tempos estava numa discussão mais acesa com o João [Botelho] e disse-lhe: ‘Tu para mim não passas de um velhote com cabelo branco!’. Em Lisboa senti que me apresentavam toda a gente pela profissão. Não me interessa o que fazem, só quero conhecer as pessoas!». E as pessoas parecem querer conhecer Gisela João.

 

retirado do Sol

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