Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012
La Spinalba ou a beleza do mundo


A obra-prima de Francisco António de Almeida, La Spinalba, tem agora edição internacional num CD triplo da Naxos que será lançado hoje no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Um acontecimento raro, de Portugal para o mundo inteiro.

 

Marta Araújo e Marcos Magalhães não conseguem esconder, no sorriso feliz, um enorme orgulho. Porque foram eles que pegaram, desde o início, em La Spinalba, projecto que se confunde com os próprios Os Músicos do Tejo, nascidos em 2005. A cravista e co-fundadora do grupo, que assumiu a direcção da produção do disco a lançar hoje, às 18h, na Sala Amália Rodrigues do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, lembra-se bem do princípio: "Andámos à procura de um nome, e complicámos tanto que acabámos por simplificar - escolhemos Os Músicos do Tejo, que tem a ver com Lisboa e connosco. A ideia era formar um grupo onde não fossemos só nós a tocar, mas onde fizéssemos os nossos projectos."

Marcos Magalhães, director artístico, músico, maestro e investigador, explica-nos o objectivo: "Queríamos fazer música orquestral e ópera, e tivémos a sorte de uma das nossas primeiras propostas ter sido aceite - La Spinalba, precisamente." Os Músicos do Tejo andavam atrás de uma ópera que tivesse a ver com Lisboa, e a escolha foi evidente: a obra de Francisco António de Almeida, compositor que terá morrido no terramoto de 1755. A ópera já tinha sido feita, mas nunca com instrumentos antigos, e tinha a vantagem de já estar em partitura, numa edição da Gulbenkian, da colecção Portugaliae Musica.

O

primeiro concerto de Os Músicos do Tejo foi, no entanto, um espectáculo em Setúbal dedicado às árias de Luísa Todi. Mas ao mesmo tempo estava no ar a ideia de La Spinalba, que o grupo já tocava e cantava parcialmente em privado, em casa. Em 2006 tiveram uma reunião com Mega Ferreira, presidente do CCB, que lhes disse: "Vamos p'rá frente". E assim se lançou o processo que conduziu a este disco. Marcos Magalhães vê-o como "um culminar" de um longo trabalho. A partir do sucesso da ópera La Spinalba, apresentada em 2008 no CCB, Mega Ferreira propôs que Os Músicos do Tejo fizessem "uma ópera por ano". E isso deu-lhes "uma perspectiva de regularidade que alterou as coisas", diz Marcos. Para melhor, entenda-se, porque não pararam a partir daí.

Logo nos outros dois projectos iniciais (as árias de Luísa Todi e o projecto Sementes do Fado), sentiram a necessidade de registar o trabalho musical. Gravaram dois discos em edições de autor, "para não ficar só no efémero", diz Marta. E andaram em projectos paralelos de gravação e concertos.

Quando se apresentou ao vivo em 2008, La Spinalba esgotou o CCB. Repetida depois em 2009, teve uma pequena digressão com quatro escalas diferentes; no tal, Os Músicos do Tejo fizeram a ópera completa 11 vezes. Não podiam ficar por aí. E quando o crítico Bernardo Mariano lançou, no Diário de Notícias, o desafio "e para quando um registo discográfico?", coisa em que já tinham pensado, a ideia ficou a ecoar. Era preciso financiamento. Fizeram um pedido de apoio pontual à DGArtes, lançaram a sugestão à Naxos directamente. E a resposta desta grande editora (grande em quantidade de edição e capacidade de distribuição) foi: "A proposta é muito interessante. Estamos dispostos a editar se vocês conseguirem os apoios necessários." Alento suficente para não desistirem.

Não desistiram. E não é que conseguiram mesmo?

C'est bon

"Sentimos que tínhamos reunido uma equipa com..." - Marcos Magalhães procura a palavra certa. Marta Araújo interrompe-o com entusiasmo: "Foi um encontro! Ficámos surpreendidos com uma equipa que estava numa sintonia impressionante." Os dois confessam ter sido decisiva a energia do teatro trazida por Luca Aprea, que encenou a versão do CCB. "Os talentos complementavam-se muito bem", diz Marcos Magalhães, "e na ópera quase 90% do sucesso é a equipa; quando é boa as coisas funcionam". No princípio, Os Músicos do Tejo eram só Marta e Marcos. Depois conheceram Luca Aprea, que já tinha contacto com a ópera. E depois todos os outros. Marta conclui que "houve terreno fértil": "O Luca conseguiu captar o espírito da Spinalba e dar-lhe substância, com o Marcos na parte musical e na direcção da orquestra. E agora no disco o teatro está omnipresente. Acho que o Luca está ali." Marcos concorda: "Foi o facto de termos trabalhado naquela direcção que colocou logo a obra num contexto de questionamento com muito potencial e feito em conjunto."

Há uma palavra que resume para eles esta ópera: t'accheta, expressão que aparece várias vezes no libreto (de autor desconhecido) desta ópera cómica de 1739, palavra que soa a um italiano aportuguesado, e que faz um português rir. E está lá, no disco, agora fixada. Marta Araújo não esconde uma certa emoção nessa pequena memória: "Nunca mais me esqueço da orquestra a rir com este t'accheta".

Os apoios chegaram finalmente. Não desistir vale a pena. E com a luz verde para começar, arrancou a segunda fase de um trabalho imenso: conseguir datas para os cantores e os músicos, fazer um mapa de trabalho que desse para todos estarem presentes, e acabar tudo dentro do prazo. Encontrou-se a semana possível: 15 a 23 de Novembro. "Para três CD? Pensámos que ia demorar mais tempo". Mas tiveram outra sorte (ou melhor, procuraram-na): "Encontrámos um produtor, o Pierre Lavoix, que fez um mapa fantástico com o puzzle das disponibilidades de todos". Lavoix (que, entre muitas outras produções e óperas, fez o som do filme Parsifal, de Syberberg) foi o nome de mais um encontro feliz. "Como pessoa também, trouxe energia para a gravação e apareceu na altura certa.", dizem Marta e Marcos quase em coro. Confiaram nele. Quando ele dizia c'est bon! era porque estava.

E como foram gravar ao Salão Nobre do Instituto Superior de Economia e Gestão? Meio por acaso: depois de verem outras salas da antiga RDP e da Capela (que por razões diferentes não serviam), quase a desistirem, ouviram, tristíssimas, as pessoas que os acompanhavam na visita prospectiva: "Só se formos ali ver ao salão nobre". Foram.

E assim se pôs de pé um projecto que reúne muitos talentos de músicos, cantores, investigadores e encenadores. Projecto que encontrou os entusiasmos e as ajudas de programadores, de instituições, de amigos. Projecto extenuante, vencendo barreiras, levado, do início ao fim, por Marta e Marcos. "A organização fomos nós, tivemos de nos desdobrar: produção, contactos, agenda, equipamento, sala, gravação, tocar (ah!, como sabe bem sentarmo-nos a tocar quando está tudo pronto!...), pré-escolha, plano de montagem, montagem, masterização, livrinho." Tudo, tudo com a força da ópera (Marta entusiasmada: "Acho que se percebe no disco"; Marcos, cauteloso: "Calma, deixemos as pessoas ouvirem").

Tudo até receberem a caixa com o disco feito, uma última emoção. Estava ali o registo de um momento, o registo de um processo longo de alegrias e entusiasmos. "O mundo é fantástico", diz-nos Marcos quando já não sabíamos o que mais lhes perguntar. "Este disco é um agradecimento à beleza do mundo." "Já tenho vontade de fazer outra gravação!", diz Marta, sonhando as músicas do futuro. "Eu ainda não!", diz Marcos, "Quero saborear um bocadinho".

Têm os dois razão: façam outras gravações, e deixem-nos saborear um bocadinho.

 

Noticia do Ipsilon



publicado por olhar para o mundo às 21:18 | link do post | comentar

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