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A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

Paulo Pedro Gonçalves está hoje no São Jorge

Paulo Pedro Gonçalves, guitarrista dos Faíscas e dos Corpo Diplomático, dos Heróis do Mar e dos LX-90, gravou em 1998 um álbum que passava o fado por filtro electrónico. Essa banda, Ovelha Negra, ficaria como corpo estranho e muito elogiado com um disco apenas no currículo. Regressa agora. Ilumina, o álbum que apresenta hoje no São Jorge, é um bicho diferente. "Com esta idade, já não tenho que ter medo das canções", confessa o guitarrista.

Ovelha Negra. Ano 1998. Paulo Pedro Gonçalves, ele da explosão punk portuguesa nos Faíscas, distinto membro da new-wave nacional nos seus sucessores, os Corpo Diplomático, reinventor da pop de raiz portuguesa nos Heróis do Mar, trocava as voltas ao fado. Ovelha Negra era o canto e os trinados passados por filtro electrónico. Um bicho estranho que a crítica adoptou e elogiou mas que o público ignorou. “Estava à frente do seu tempo e tornou-se um disco de culto”, diz 14 anos depois o guitarrista. Hoje, vamos reencontrá-lo. A Ovelha Negra na sala 2 do São Jorge, em Lisboa, inserida no cartaz do Misty Fest para apresentar a sua segunda vida (19h). A programação deste sábado do festival inclui ainda os Supernada no São Jorge (Sala Manoel de Oliveira, 22h) e A Naifa no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra (22h). 

Ilumina é o título de um novo álbum, acabado de editar. Um disco que não estará à frente do seu tempo. Nele, não há vestígios da electrónica que marcou a estreia. Os Ovelha Negra criados pelo guitarrista que vive em Londres desde a década de 1990 pretendem ser algo de diferente. “Já não tenho que ter medo das canções”, diz Paulo Pedro Gonçalves. Ovelha Negra não é agora bicho maldito. Simplesmente canções. Sem tempo.

Há dois anos, o antigo guitarrista dos Heróis do Mar viu-se preso em casa. Uma infecção no ouvido interno impedia-o de se manter em pé, impedia-o, naturalmente, de trabalhar. Esse foi o primeiro impulso para um regresso não programado: “Comecei a compor e veio o português, veio aquela coisa do fado”, conta. Pouco depois, um musicólogo norte-americano abordou-o. Michael Arnold, estudioso das ramificações modernas do flamenco e do fado, estava entusiasmado por falar com Paulo Pedro Gonçalves. Para ele, Ovelha Negra era o pináculo do que classifica de neo-fado. Tudo se conjugou. O sair-lhe aquela coisa do português quando pegou na guitarra e o entusiasmo do académico vindo do outro lado do Atlântico. Ilumina começava a nascer naquele momento. Não seria verdadeiramente sequência da estreia de há 14 anos.

Lemos títulos como A medalha de São Cristóvão ou Amália continua a cantar e sim, só pode haver fado por aqui. Ouvimos um verso como “Só com a morte é que vou descansar”, deDeus criou o diabo, e nele prosseguimos. Mas não, apesar de Toda a vida, toda a vida, no seu ritmo de marcha afadistada, partilhar o mesmo espírito criativo de uns OqueStrada (fado para além do fado, portanto), ou de Adeus meu amigo poder ser matéria criativa d’A Naifa,Ilumina não é fado. É Paulo Pedro Gonçalves, que se mantém “um bocado afastado” do presente da música da sua terra (gosta muito de Manuel Fúria, dos Deolinda ou da Carminho, mas por estes dias prefere ocupar tempo livre a “ler e ouvir música clássica”), a ser puxado pelo “sentimento de saudade” que tem “por este país”. Mas não só, que Iluminanão é disco de lamento. Não é álbum piegas.

Gravado com músicos britânicos cujo currículo conta com nomes como Van Morrison, Waterboys, Marc Bolan, Sinead O’Connor ou Stereophonics, com Ed Harcourt a ajudar no piano em Sonho meu 22 (e a ceder o seu estúdio para gravar os metais) e com Kátia Silva, imigrante cabo-verdiana em Londres, a dividir as vozes, Ilumina pretende conjugar esse encontro do “folclore com um arranjo mais rock’n’roll” que conduz, por exemplo, a António Variações – “não tentei imitá-lo, mas quando canto também sinto que sou o Variações, é inevitável” – com uma sensibilidade de singer-songwriter apurada nos últimos tempos. “Sou grande fã do Dylan e do Cohen e tenho ouvido muito Hank Williams e Woody Guthrie”, confessa. “O formato de canções acompanha-me desde miúdo, quando ouvia em casa o Frank Sinatra e os musicais”. A estadia inglesa, por sua vez, ajudou-o a perceber desse legado clássico. “É muito valorizado, muito importante. Não temos que ter medo do sucesso e do impacto de uma canção. Não temos que lutar para o sabotar, como me aconteceu depois do Amor [single de 1982 dos Heróis do Mar]”. É depois de dizer isto que lhe ouvimos: “nesta idade já não tenho que ter vergonha de canções”.Gravou-as com músicos distantes culturalmente da tradição musical portuguesa, mas que responderam com entusiasmo às maquetas que o guitarrista lhes foi mostrando. Gravou-as “tocando em ensemble como se fosse fado”. Quer isto dizer? “A base das canções foi captada no momento. E tivemos poucos ensaios, o que foi bom, porque assim os músicos não tiveram tempo de conhecer bem o material e muito acabou por ser alterado. Queria apanhar o momento. E o fado é isso. O momento”. E a Ovelha Negra, não sendo propriamente fado, é o momento de Paulo Pedro Gonçalves, ano 2012.

Regressado aos discos 14 anos depois, o músico que chegou a Londres para transformar os LX-90 em Kick Out The Jams, que abriu depois disso o atelier Pavement e que, ainda depois disso, trabalhou no Mar do Norte em poços petrolíferos, sente-se “renovado e com vontade de escrever”. Revela que já tem preparados mais dois álbuns em português e que sente muita vontade de fazer uma revista à portuguesa, “mas moderna”: “Não vivemos no fascismo, mas quase. Vivemos no fascismo económico. E a revista era uma forma muito nossa de dizer o que não podia ser dito.”

Tudo aquilo, contudo, será depois. Agora, neste final de tarde, haverá canções. Há Ilumina

 

Noticia do Público

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