Terça-feira, 26 de Junho de 2012

A melhor música portuguesa de hoje em colectivo: Irmãos Demónio

A melhor música portuguesa de hoje em colectivo: Irmãos Demónio (Miguel Manso)


Inúmeras actividades com a palavra no centro. É o Festival Silêncio, entre esta terça-feira e domingo, em Lisboa. Amanhã, no MusicBox, há espectáculo com os Irmãos Silêncio. Quem? Paus, Filho da Mãe e Kalaf.

É mais do que um concerto e não é bem uma banda. É um colectivo de nome passageiro (Irmãos Demónio) composto por gente que reflecte algumas vertentes da melhor música que vai sendo feita em Portugal na actualidade, através da guitarra de Rui Carvalho (ou seja, Filho da Mãe), das percussões de Joaquim Albergaria (Paus) e de Hélio Morais (Paus, Linda Martini) e da voz de Kalaf (Buraka Som Sistema).

Apresentam-se amanhã (MusicBox, 23h), no primeiro espectáculo de música do Festival Silêncio, em Lisboa, que vai até domingo com outros concertos muito esperados. Na sexta-feira todas as atenções estão viradas para o regresso do projecto Os Poetas (São Jorge, 22h), de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes, que tem um único álbum editado em 1997 (Os Poetas - Entre Nós e as Palavras). 

No sábado, os Pop Dell"Arte (São Jorge, 22h) apresentam Neurotycon, onde revisitam várias referências (de Homero a William Gibson) e também canções clássicas do seu percurso. No domingo, os Mão Morta dão um concerto especial, de forte componente spoken word, revisitando a sua obra mas também a poesia de Al Berto. Na primeira parte actua Joshua Idehen, um dos nomes mais conhecidos da spoken word britânica. 

Kalaf poeta-cantor


De todos estes nomes os Irmãos Demónio parecem ser os que têm uma relação mais distante com a palavra. A música de Rui Carvalho é instrumental. Joaquim Albergaria canta ocasionalmente nos Paus, e fazia-o também nos Vicious 5, mas a poesia está longe de ser o seu elemento. E Kalaf assume-se como poeta-cantor (em projectos do passado recente como os 1-Week Project ou Type), mas nos Buraka funciona mais como mestre-de-cerimónias. 

Então que fazem eles num festival onde a palavra é essencial? Tudo começou "quando o Alex Cortez [do MusicBox] convidou os Paus, e mais uma série de projectos, para reinterpretar músicas do GAC e nós, em vez de levarmos as duas baterias, optámos por caixas de ritmo, adoptando um outro modelo de apresentação", recorda Hélio Morais. 

Não significa que, amanhã, a componente rítmica seja anulada, mas será mais diluída, num espectáculo dividido em três partes. "Uma primeira de não-palavra", revela Hélio, "onde o Rui tocará." Depois a palavra terá uma componente mais abstracta com ele e com o Joaquim Albergaria. Na terceira metade, entrará em acção Kalaf, acompanhado pelos dois cúmplices. "É a fase da palavra dita", reflecte Hélio Morais. 

O desafio inicial não era esse. "Num primeiro momento, o Alex pediu-nos para revisitar poetas surrealistas e alguns concretos portugueses, coisa que não vai acontecer", assume Joaquim. A razão não é difícil de descortinar. "Pertencemos a uma geração que sempre andou à volta dos discos e foi muitas vezes a partir desse elemento que chegámos à palavra e não o contrário. Daí termos optado por abordar letras e poemas de algumas músicas, retirando-os de um contexto de canção, para nos concentrarmos no que está a ser enunciado."

Foi aí que a hipótese de Kalaf se juntar aos Irmãos Demónio surgiu. Hélio tinha colaborado com ele num projecto apresentado na Fundação Gulbenkian, também à volta da palavra e da reinterpretação de canções dos 1-Week Project e Type. Depois também existiu o facto de, há pouco tempo, na Queima das Fitas do Porto, os Paus terem partilhado o palco com os Buraka. 

Sobrevivência urbana
"Logo aí aceitei o convite", lembra Kalaf, "mas disse de imediato que os textos não seriam de poesia convencional. Pensei logo em textos do [rapper português] Halloween, que representam bem a Lisboa de hoje. Fiz uma recolha de textos onde ele traduz a sobrevivência urbana, densa e obscura." 

Para além de Halloween, serão apresentados textos do angolano Phay Grande Poeta e do género musical brasileiro baile funk, como a canção de Cidinho Eu só quero ser feliz, que traduzem a procura da palavra informal, bastarda, por vezes até inadequada. 

"Existe uma passagem da letra de Eu só quero ser feliz onde, às tantas, é dito: "E ter a consciência que o pobre tem seu lugar"", reflecte Kalaf. "Gosto de textos assim, acessíveis, mas que são corajosos e nos interrogam, com alguém a assumir sem problema a sua condição, questionando a sua realidade, e a realidade à volta, de forma simples." Kalaf, Hélio, Joaquim e Rui pertencem a uma geração que advoga uma relação descomplexada com a palavra dita em português. 

Ao contrário do que aconteceu na pop-rock em parte das décadas de 1990 e de 2000, onde o inglês dominava, assiste-se hoje em dia ao regresso do português. 

"O hip-hop foi importante nesse despertar", admite Joaquim, "pelo facto de não haver uma separação nítida entre o "eu" lírico e o "eu" da rua. A forma como falam é a maneira como escrevem e isso acaba por passar, reunindo as pessoas à volta da palavra."

 

Noticia do Público



publicado por olhar para o mundo às 21:23 | link do post | comentar

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