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A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

Caro Pedro,

 

Não me conheces de lado nenhum mas vou-te tratar por “tu”, pode ser? Desculpa lá a lata, mas quando se é fã de alguém gostamos de pensar nessa pessoa como um amigo.

 

Tenho 32 anos, tenho uma mulher e um filho lindo, e sou teu fã, desde o “Viagens” em 94, desde os 14 portanto.

Aos 14 anos, arrastava os meus pais para os teus concertos, e eles lá iam, contentes por dar esta oportunidade ao filho e acabaram por se tornar também fãs.

 

Aos 14 anos percebi que, na companhia dos Bandemónio, tinhas revolucionado a maneira de fazer e vender música em Portugal e isso marcou-me.

 

Antes de continuar, gostava de te mostrar uma coisa:

Discos de Pedro Abrunhosa

 

Falta aqui o “Tempo”, o livro “F” e o único bilhete que guardei dos vários concertos teus a que assisti, o inesquecivel primeiro Coliseu de Lisboa dos Bandemónio (estes dois últimos itens por ti autografados). Faltam aqui na foto, porque ficaram encaixotados/perdidos na última mudança de casa.

 

Como vês tenho todo o teu trabalho discográfico

 

Voltando à minha história: Por volta dos 16 passei a ser DJ na Escola Secundária e até aos 18 os teus (meus) discos foram passando naquelas colunas ranhosas que conseguimos arranjar a muito custo.

 

Aos 18 entro na faculdade, onde voltei a ser DJ na rádio, e além disso passo a ser DJ em bares locais, função que desempenhei durante uns 4 anos. Nessa altura, a muito custo, comprei a meias com um amigo um gravador de CDs (de 2 velocidades) pela módica quantia de 130 contos. Os teus e os outros originais que tinha passaram a ficar em casa, sossegados para não se estragarem, porque eram valiosos demais para andar a “levar porrada” todos os dias nos bares. Bares esses que pagavam, e justamente, a respectiva licença de direitos de autor. Cheguei a ter uma rusga policial que me acompanhou a casa no sentido de verificar que os originais existiam. Tudo ficou resolvido! Sem problemas.


Fui o primeiro DJ do meu grupo da altura que teve um controlador de MP3 para ligar ao computador e passar música dessa forma. Os CDs rapidamente foram substituídos por ficheiros.

 

Faz scroll lá acima e revê a foto. Não te esqueças que sempre tive os originais.

 

Entretanto ganhei juízo, deixei a noite, e sou agora um pacato cidadão que compra tudo o que é nova música portuguesa, porque gosta dela, porque cresceu a ouvi-la, e fez crescer outros a ouvi-la, nos bares, e agora em casa, em que o CD preferido do meu filho de 3 anos é dos Clã e não do Noddy!

 

Actualmente a tua música está numa coisa chamada iTunes. A última vez que peguei nos teus discos, exceptuando hoje para tirar a foto, foi para aí há 3 ou 4 anos quando decidi passar a ouvir música apenas em suportes não físicos. Não te esqueças do que referi em cima, continuo a comprar discos como se não houvesse amanhã, simplesmente a primeira coisa que faço quando chego a casa, vindo da FNAC, é passar o CD para o iTunes, e o primeiro, precioso CD, de colecção, vai para a estante, de onde sai ocasionalmente para ver o livro, e mostrar aos amigos.

 

Custa-me a conseguir entender onde está a ilegalidade, o “grave prejuízo” para ti, o autor, de ter decidido guardar os originais e mostrar a tua música ao mundo, quando era DJ, e aos meus, agora, num suporte diferente daquele em que o comprei.

 

Por esta altura já deves ter percebido porque te escrevo esta carta aberta.

 

Isso mesmo, é sobre o Projecto de Lei 118, sobre o qual tu subscreveste um abaixo-assinado, publicado no site da SPA, e que diz:

“Considerando que a Lei da Cópia Privada ainda em vigor está desajustada da realidade com graves prejuízos para os titulares de direitos, os autores e editores abaixo-assinados exigem uma rápida revisão da referida Lei que contemple remunerações sobre os suportes, aparelhos e dispositivos de armazenamento digitais que são actualmente, ou venham a ser no futuro, utilizados para a cópia privada das obras protegidas.”

Só vou dar uma explicação sobre o assunto, porque não te quero maçar com informação que podes, e deves, analisar a fundo para perceberes bem aquilo pelo qual estás a dar a cara.

 

Estamos a falar não de “suportes (…) que são (…) utilizados para a cópia privada” mas sim de TODOS os suportes que sejam OU NÃO utilizados para a cópia privada.

 

Mais! Não sei como é que a SPA te vendeu isto, mas esta lei não tem rigorosamente NADA a ver com pirataria. Tem a ver com taxar quando eu compro o teu CD e o ponho no iTunes para facilidade de audição PESSOAL.

 

Este projecto lei não é apenas imoral, diria mesmo que roça o inconstitucional. Imagina agora o que era cobrarem-te uma taxa quando compras um cachecol porque podes, eventualmente, um dia, por acaso, lembrares-te de asfixiar alguém com o mesmo.

 

Eu não quero acreditar que aquele artista que tanta vez me fez mandar foder políticos e políticas erradas e corruptas, que me fez mandar foder as prácticas cujo única finalidade são os interesses de poucos versus o interesse comum, assinou e susbcreve esta barbaridade.

 

O homem que juntou na Costa da Caparica uma geração que lutou contra a injustiça dos aumentos da Ponte 25 de Abril, vem agora subscrever esta imoralidade. Estou desapontado contigo, pá! Tu não eras esta pessoa!

Mas tenho esperança.

 

Pedro, estou convicto de que apenas subscreveste este abaixo-assinado porque não foste devidamente informado do Projecto Lei. Venderam-te o conto do vigário, de que isto tem a ver com a pirataria, quando não é verdade.

 

Pedro, sei que vais ter o bom sendo de analisar o Projecto Lei e aquilo que ele realmente representa, bem como o ponto de vista da população sobre o mesmo.

Aprece-me dizer:

Há lobbies na Indústria Fonográfica
Querem fazer passar uma lei pornográfica
E eu e tu o que é que temos de fazer?
(…)

Isso!

O teu, ainda, fã:

Marco Almeida

 

Retirado de 

Wonderm00n

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