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A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

A Música Portuguesa

Em terras Em todas as fronteiras Seja bem vindo quem vier por bem Se alguém houver que não queira Trá-lo contigo também

Cristina Branco

 

Entre conversas nada profissionais, dias antes desta entrevista, surgia a referência a uma "conversa agendada com Cristina Branco". Do outro lado, a reacção: "A fadista?" Porque não sabíamos de cor a resposta certa, guardámos a questão no bolso e entregámo-la a quem de direito. Cristina Branco, com um novo disco e mais uma viagem entre géneros, continentes e línguas, esclarece: "Não." Claro que não, já o sabíamos. Mas legitimar a opinião com a certeza da artista é outra coisa. "Não Há só Tangos em Paris" volta a explicar porquê. Ainda que o fado lhe seja coisa crónica, Cristina Branco vai de Buenos Aires a Paris com paragem pela Mouraria como se de um voo low cost se tratasse: com rapidez e eficácia, mas também com solavancos pelo meio, efeitos secundários (aqui saudáveis) causados pelas mudanças rítmicas. Ainda assim, tudo na mesma escala, sem atrasos nem perdas de bagagem, para interpretar um conjunto de canções que querem carimbar a consanguinidade do tango e do fado.

Cristina Branco não é fadista. "Isso é uma atitude, não basta cantar fados. E eu preciso de mais para me equilibrar." E tão-pouco é uma tanguera. Seria até "pretensiosa" caso se apoderasse do género. O que há de sobra é curiosidade pelos dois. O primeiro fê-la descobrir-se enquanto cantora, deu-lhe a possibilidade de fazer o percurso iniciado em 1997, com "In Holland". O segundo é coisa "carnal, sensual, mas também dramática, também representativa de uma certa clausura". Pelo meio, a certeza de que "ambas as canções são físicas, nós talvez com mais pudor, eles com a mulher numa realidade mais submissa, nos dois casos com o desejo como protagonista".

Mas em Buenos Aires, a dança é corpo a corpo, de flor na boca e um mero domesticar do instinto mamífero, transportado para cenário urbano - somos nós a ripostar, a dizer que o salto alto não é o xaile e que as fronteiras existem. "Claro", diz-nos Cristina, preparando o remate de grande penalidade, "e no fado o desejo é o do regresso, é provocado pela saudade, pela ausência, pela perda, pelo desamor."

Horizontes comuns, portanto. "Com papéis distintos mas sempre com a mulher no papel de protagonista", diria a cantora que os ilustrou. Fadista que não o é e se deixou apaixonar pelo tango através da sedução do sotaque francófono - "a população argentina de Paris tem uma relação muito forte com as suas tradições e toda essa realidade sempre despertou em mim um enorme enamoramento", diz-nos -, Cristina Branco rendeu-se, mais uma vez, às viagens cantadas por uma mulher em namoro com as palavras dos homens. Eles são "mais óbvios", elas "mais subtis". 

Não vem mal ao mundo desta oposição, antes uma vantagem para quem canta versos de barba rija: "Talvez seja mais fácil perceber o que escrevem os homens. As mulheres pensam em mais coisas ao mesmo tempo, somos mais rebuscadas, com mais filigranas na maneira de ver as coisas, de as racionalizar." Exemplos, Cristina, precisamos de exemplos. Cá vai: "O David Mourão-Ferreira, um dos nomes que mais gosto de cantar, sempre disse o que todos queremos dizer como se tudo fosse muito simples." E na verdade? "Na verdade não sei se assim é."

Certezas só as da "vida rock''n''roll", que também se passeia pelos dias de Cristina Branco - "só não há blusão de cabedal". Estas tanguices (do tango) de bairro castiço são resultado da curiosidade natural que lhe salta do olhar atento. Viagens para aqui e para acolá, de quem gosta de não estar em lado nenhum só porque isso lhe permite regressar. Como no fado e no tango: "Nos dois há uma dor profunda e nunca explícita. Como eu, sempre à espera de regressar a casa."

 

Via Ionline

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