Quarta-feira, 19.09.12

 

 

Letra

 

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

José Carlos Ary dos Santos



publicado por olhar para o mundo às 08:51 | link do post | comentar

Terça-feira, 18.09.12

 

 

letra

 

Venho do deserto
do reino dos cactos
lá onde brota a virtude
e a pureza dos actos
sou um caubói solidário

venho salvar a cidade
puxo do meu breviário
e vou pregar a verdade
o que me prende ao humanos
é a salvação dos maus
prefiro o cheiro do gado
e o silvo dos lacraus

caubói, caubói solidário
faz chegar a toda a parte
o longo braço da moral

atravesso o rio Bravo
e na rua principal
da cidade perdida
travo um duelo mortal
com o egoísmo reinante
com os agentes do mal
e sem olhar para trás
com medo da estátua de sal
digo adeus à mulher
salva da perdição
que me pede o meu amor
mas eu nem lhe dou atenção

ele é um caubói solidário
faz chegar a toda a parte
o longo braço da moral
caubói, caubói solidário
faz chegar a toda a parte
o longo braço da moral

parto sem recompensa
sem conferência do imprensa
no meu cavalo lendário

sou um caubói solidário
sou muito mais que rotário
não quero ficar na história
quero voltar ao deserto
sem a gordura da glória
para o conforto dos cactos
para os escorpiões
se precisarem de mim
eu ouço as vossas orações



publicado por olhar para o mundo às 17:50 | link do post | comentar

Sexta-feira, 07.09.12

 

 

Letra

 

Por entre as ramadas surgia agora um casarão fascinante. Fomo-nos encaminhando para a porta e entrámos. Do lado direito havia uma sala enorme, na penumbra, com mobília encerada e uma máquina de escrever sobre uma longa mesa.

Perdi-me na imensidão do silêncio, na penumbra…

um espelho…

Um tic-tic mágico despertou-me! era o Emílio Bacharel a escrever à máquina, tic-tic tic-tic, nem parecia que estava a tripar.   O meu avô, encavalitado num armário ao fundo da sala, comia bombons, todo lambusado.   Dissipei-me na observação daquele quadro vivo, emoldurado pela penumbra…

sombras…

O tic-tic irritou-me e desapareci no ar translúcido das outras divisões. Foi quando chegou a família – é melhor ir avisar o Bacharel, pensei, eles não devem gostar de ver um desconhecido a mexer na máquina, é nova, nem eu posso mexer.   Não fui e eles não gostaram mas não disseram nada porque eram bem educados.   Perguntaram ao meu avô que estava a fazer e ele, perturbado, respondia incongruências sublinhando erva. Erva, sublinhava ele. Começaram por nada entender, pretexto para novas perguntas, mais estranhas e incisivas.  Chegaram mesmo a irritar-se e a berrar confusamente questões sem nexo.  A minha avó perguntou se ele estava maluquinho e, exaltada, porque estava sempre a dizer erva? e ele, desnorteado, foi contar tudo…
Retirei-me para o meu quarto, onde já estava o meu primo. Depois apareceu o meu tio que bateu no meu primo, eram de Lisboa, levando-o sem sequer me dirigir o olhar. As coisas acalmaram, forma todos não sei para onde, desapareceram, e eu fiquei deitado na cama a pensar nos estrondos e, raios, marimbando-me pura e simplesmente.

Ao acordar, pensei em mandar outra trip, eu tinha muitas não sei porquê, e como ainda era noite, fui esperar pelo nascer do dia para a janela. Ainda estava tudo silencioso e escuro quando, dum lado, surgiu uma espécie de lua cheia, subindo devagarinho no céu até estacionar um pouco acima da linha do horizonte e desaparecer. Surgiram mais luas, de ambos os lados, sempre outra mal a anterior acabava de desaparecer, até surgir uma lua escura que subindo rapidamente no céu, estaca ao alto e aí se conserva – tinha nascido o dia.

Saí de casa e, cá fora, caíam uns pingos de chuva, estava uma manhã cinzenta. Enquanto procurava um sítio abrigado ia encontrando, acho que eram trabalhadores, com sachola e saúde no olhar, e de cada vez que pensava ter encontrado um bom sítio, surgiam dois, sempre dois, a virar uma curva de estradão, até que me sentei num banco em frente a uma espécie de parque infantil cheio de putos.

Os putos olharam para mim de olhos muito abertos e, abandonando os baloiços e o escorregão num movimento imperceptível, aproximaram-se, com vagar, sempre a olhar para mim de olhos muito abertos, e silenciosos, cautelosamente sentaram-se
nos bancos
Foram-se sentando                          em frente

nos bancos                    a mim

em frente

a mim,

deviam ser excursionistas pela maneira como tagarelavam umas com as outras enquanto preparavam a merenda, e cada vez se sentavam mais. Já davam a volta à mesa que havia no meio dos bancos, quando uma excursionista se sentou a meu lado, e ficou silenciosa, a olhar em frente, mas eu estava demasiado ocupado a fazer um pica, com um papel de embrulho que não colava. Depois de muito cuspo pareceu-me, enfim, seguro, e acendi um fósforo que se apagou antes de o conseguir chegar ao pica. Acendi mais fósforos e quando, finalmente, consegui que o pica começasse a queimar, ele descolou-se e eu tive que o apagar. Tornei a enrolá-lo e, para que desta vez não houvesse azar, fiz um orifício numa prata e enfiei lá o pica para o manter comprimido. Depois andei à procura dos fósforos, mas os fósforos já tinham acabado, por isso toquei no braço da excursionista e estendi-lhe o pica, ela disse-me que não queria, eu disse-lhe que não lho tinha oferecido mas que pedia fósforos. Então ela passou-me uma caixa de fósforos, eu acendi o pica e ela perguntou-me muito baixinho se aquilo era mesmo droga, eu disse-lhe que sim, ela disse que não acreditava, e eu encolhi os ombros.

Entretanto, passaram umas camionetas de excursão, que apitaram e todas disseram adeus aos que iam lá dentro, adeus, até as camionetas desaparecerem. Depois, continuaram outra vez a tagarelar,

menos a que se tinha sentado ao meu lado, que olhava em frente, sem falar. Acabei o pica, tirei uma caixinha do bolso, e da caixinha tirei um ácido, ela perguntou-me o que era aquilo, eu disse-lhe LSD, e meti-o à boca.



publicado por olhar para o mundo às 22:54 | link do post | comentar

Quarta-feira, 30.11.11
Letra
Não encontrei a letra desta música
Letra


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