Terça-feira, 10 de Maio de 2011

X-Wife

 

Uns óculos amarelos foram fundamentais para que se formassem, há quase dez anos. Ao quarto álbum, a banda do Porto deu algum descanso às guitarras e está mais interessada em fazer dançar

"Can't get out of this tight jeans", diz João Vieira em "I Live Abroad". O que podia ser uma afirmação do "cool" eterno, do rock'n'roll que não sai do corpo, é afinal outra coisa. "Há gajos que estão nesta vida [de rock] há 20 anos. Estão barrigudos, usam 'eyeliner' e não conseguem sair das calças. Uma coisa que era inocente torna-se decadente. Se chegar aos 40 anos e ainda estiver a tocar em bares para seis pessoas... é triste", explica o vocalista e guitarrista dos X-Wife, ele que também viveu no estrangeiro.

Vieira ainda não chegou aos 40, mas só lhe faltam três anos para isso (há três meses foi pai). As coisas mudaram desde que os X-Wife puseram a cabeça de fora, em 2002, em plena euforia neo-pós-punk, numa rara sincronia do Portugal musical com o resto do mundo. Mas a banda não acusa a passagem do tempo, como demonstra "Infectious Affectional", que apresentam hoje no Lux, em Lisboa. "Não me sinto um avô Cantigas. O James Murphy [dos finados LCD Soundsystem] é um gajo que chega todas as idades e não é uma pessoa que olhes e penses 'Que ridículo'", diz, em conversa com o Ípsilon num café do Porto.

João Vieira e os X-Wife chegaram, desculpe-se o cliché, à maturidade. "Fui para Londres [nos anos 90] atrás dos meus sonhos, formar uma banda, ser uma estrela rock e tocar com os Pulp, os Suede e as bandas da altura. Isso é uma ilusão, só um em 100 mil consegue destacar-se", reflecte. Quando voltou ao Porto, encontrou o seu espaço: montou uma festa que se tornou uma instituição da noite portuense, o Club Kitten, por onde passaram as novidades do electroclash, rock e punk. Ingredientes que seriam vertidos para os X-Wife.

Eram tempos diferentes. O Porto nocturno era uma sombra do que é hoje (bares em todas as esquinas da baixa, dezenas de propostas todas as noites). "Não se passava nada. Havia coisas de drum and bass, havia a zona industrial com house comercial, havia uma ou outra coisa, mas nada de novo e fresco", recorda. Neste deserto, tornou-se fácil encontrar espíritos parecidos com quem fazer uma banda: "Eu fui ter com o Rui [Maia, teclados e sintetizadores] por causa dos óculos: 'Este gajo tem óculos amarelos à Jarvis [Cocker, dos Pulp], este gajo conhece música fixe, de certeza'".

Trabalho de casa

Ao quarto disco, deram algum descanso às guitarras (que estavam em todo o lado em "Are You Ready For The Blackout?", de 2008) e focaram-se no baixo, na bateria e nos sintetizadores. "Sabíamos que tínhamos que tomar um novo caminho para não nos repetirmos. Ao longo de 2010, o caminho foi sendo traçado", diz Rui Maia, que, como Vieira, é DJ e, para além disso, mantém uma produção a solo (lançou um recomendável EP na Optimus Discos, "Mirror People", em 2009, e tem lançado discos que apontam para as pistas de dança).

Como no início do grupo, altura em que João Vieira entregou a Rui e a Fernando Sousa (baixo) um CD com músicas e disse "Era fixe fazermos uma banda nesta onda", para compor "Infectious Affectional" os X-Wife voltaram à colecção de discos. Redescobriram o "'disco' not 'disco'" de gente como Ian Dury, Yoko Ono ("Walking on Thin Ice", canção com um "baixo gordo não agressivo, uma parte rítmica muito fixe", diz João), os Loose Joints e Dinosaur L, de Arthur Russell, os Talking Heads e os Blondie.

"No início, arriscámos fazer uma coisa diferente: ouvir bandas, entusiasmar-nos com coisas com muito 'reverb', coisas como os Jesus and Mary Chain na fase do 'Psychocandy', com 'reverb' na bateria, bandas como os Detachments, que andava a ouvir... Mas achámos que era um disparate. Há bandas que se sentem na obrigação de mudar o som e isso não é necessário. O disco já é suficientemente diferente do anterior", diz João.

O processo de fabrico das canções foi também diferente. Antes de gravarem uma maqueta, trabalharam em casa, explorando possibilidades. "Demorámos imenso só a descobrir o som de tarola do disco. Queríamos um som de tarola específico", exemplifica o vocalista.

A diferença mais audível está, porém, na voz de João, menos monocromática do que no passado. "Já não uso aquela coisa dos falsetes e da berraria, não me apetece fazer mais isso. A minha voz mudou.

Agora, se quisesse cantar o 'Rockin' Rio' como no disco [o primeiro EP dos X-Wife] não conseguia", confessa. "Antes, fazia as vozes no ensaio. Desta vez, comecei a experimentar fazer vozes em casa. Quando trabalhas a voz em casa, permite-te trabalhá-la de maneiras muito diferentes. Num ensaio, numa sala pequenina, com uma bateria acústica, tens que puxar pela voz para ser ouvida; em casa, estás com os 'phones' e podes fazer uma voz grave e baixa, podes cantar ou falar, fazer algo como Lou Reed. Podes perceber como é que podes tirar mais partido da voz".

 

Via Ipsilon 

 

 

 

 

 

 



publicado por olhar para o mundo às 15:26 | link do post | comentar

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