Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

Zeca afonso

 

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (Aveiro, 2 de Agosto de 1929 — Setúbal, 23 de Fevereiro de 1987), também conhecido por Zeca Afonso, foi um cantor e compositor português.

 

Oriundo do fado de Coimbra, foi uma figura central do movimento de renovação da música portuguesa que se desenvolveu na década de 1960 do século XX e se prolongou na década de 70, sendo dele originárias as famosas canções de intervenção, de conteúdo de esquerda, contra o fascismo. Zeca Afonso ficou indelevelmente associado ao derrube do Estado Novo, regime de ditadura fascista vigente em Portugal entre 1926 e 1974, uma vez que uma das suas composições, "Grândola, Vila Morena", foi utilizada como senha pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), comandados pelos Capitães de Abril, que instaurou a democracia, em 25 de Abril de 1974.

 

Foi criado pelos tios, a quem chamava tia Gegé e pelo tio Xico, numa casa situada no Largo das Cinco Bicas, em Aveiro, até aos três anos. Com essa idade, foi viver para Angola, onde o pai havia sido colocado como delegado do Procurador da República, dois anos antes.

 

A relação física com a natureza causou-lhe uma profunda ligação ao continente africano que se reflectirá pela sua vida fora. As trovoadas, os grandes rios atravessados em jangadas, a floresta esconderam-lhe a realidade colonial.

 

Em 1937, volta para Aveiro onde é recebido por tias do lado materno, mas parte no mesmo ano para Moçambique, onde se reencontra com os pais e irmãos em Lourenço Marques (hoje Maputo). No ano seguinte volta a Portugal, onde vive com outro tio, o tio Filomeno, que ocupava o cargo de Presidente da Câmara na vila de Belmonte. Em 1939, os seus pais foram viver para Timor, onde seriam cativos dos ocupantes japoneses durante três anos, entre 1942 e 1945, por ocasião da 2ª Guerra Mundial. Durante esse período, Zeca não teve notícias dos pais.

 

Em Belmonte, completa a instrução primária e convive com o mais profundo ambiente do Salazarismo, de que seu tio era ferveroso admirador. Filomeno Afonso era pró-franquista e pró-hitleriano. É nesta altura que Zeca, como era costume e obrigação, adere à Mocidade Portuguesa. «Foi o ano mais desgraçado da minha vida», confessaria Zeca.

 

Zeca Afonso vai para Coimbra em 1940 e começa a cantar por volta do quinto ano, no Liceu D. João III. Os tradicionalistas reconheciam-no como um bicho que cantava bem. Inicia-se em serenatas e canta em festas populares, interpretando o fado de Coimbra, lírico e tradicional. Em 1948 completa o Curso Geral dos Liceus, após dois chumbos. Conhece Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição da família. Continua na vida associativa, fazendo viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica e jogando futebol, naAssociação Académica de Coimbra. Em 1949 inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Volta a Angola e Moçambique, integrado numa comitiva do Orfeão Académico de Coimbra.

 

Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o primeiro filho, José Manuel. Dedica-se a dar explicações e a fazer revisão de textos no Diário de Coimbra, ao mesmo tempo que grava o seu primeiro disco, Fados de Coimbra. De 1953 a 1955 cumpre, em Mafra e Coimbra, o Serviço Militar Obrigatório.

 

Tem grandes dificuldades económicas para sustentar a família, como refere em carta enviada aos pais em Moçambique. Em 1963 termina a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, com uma tese sobre Jean-Paul Sartre, intitulada Implicações substancialistas na filosofia sartriana.

 

No mesmo ano são editados os primeiros temas de carácter vincadamente político, Os VampirosMenino do Bairro Negro — o primeiro contra a opressão do capitalismo, o segundo, inspirado na miséria do Bairro do Barredo, no Porto — integravam o disco Baladas de Coimbra, que viria a ser proibido pela Censura.[2] Os Vampiros, juntamente com Trova do Vento que Passa (um poema de Manuel Alegre, musicado e cantado por Adriano Correia de Oliveira) viriam a tornar-se símbolos de resistência antisalazarista da época.

 

Em 1956 vai leccionar para Aljustrel e divorcia-se de Maria Amália. Em 1958 envia os filhos para Moçambique, onde ficam ao cuidado dos avós. Entre1958 e 1959 é professor de Francês e de História, na Escola Comercial e Industrial de Alcobaça. Em 1959 participa frequentemente em festas populares e canta em colectividades, para lançar em 1960, o seu quarto disco, Balada do Outono. Em 1962 segue atentamente a crise académica deLisboa, convive, em Faro, com Luiza Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher. Segue-se uma nova digressão em Angola, com a Tuna Académica da Universidade de Coimbra, e no mesmo ano é editado o álbumCoimbra Orfeon of Portugal, onde José Afonso rompe com o acompanhamento das guitarras de Coimbra, fazendo-se acompanhar, nas canções Minha MãeBalada Aleixo, pelas violas de José Niza e Durval Moreirinhas.

 

Realiza digressões pela Suíça, Alemanha e Suécia, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo. Em Maio de 1964, José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção Grândola, Vila Morena, que viria a ser a senha do Movimento das Forças Armadas, no golpe de 25 de Abril de 1974. Nesse mesmo ano são editados Cantares de José AfonsoBaladas e Canções.

 

De 1964 a 1967, Zeca está em Lourenço Marques com Zélia, onde reencontra os seus dois filhos. Nos últimos dois anos, é professor de liceu, na cidade da Beira. Aí musicou Bertolt Brecht, numa encenação da peça A Excepção e a Regra, desenvolvendo uma intensa actividade anticolonialista, o que lhe causa problemas com a PIDE, a polícia política fascista opressora. Em Moçambique nasce a sua filha Joana, em 1965.

 

Quando regressa a Portugal, é colocado como professor em Setúbal, mas, devido ao seu papel contra o Salazarismo, é expulso do ensino oficial. Entre 1967 e 1970, Zeca Afonso torna-se um símbolo da resistência democrática. Mantém contactos com a Liga Unitária de Acção Revolucionária e o Partido Comunista Português — ainda que se mantenha independente de partidos — e é preso pelaPIDE. Continua a cantar e participa, em 1969, no I Encontro da Chanson Portugaise de Combat, em Paris. Grava também Cantares do Andarilho, recebendo o prémio da Casa da Imprensa pelo Melhor Disco do Ano, e o prémio da Melhor Interpretação. Para que o seu nome não seja censurado, Zeca Afonso passa a ser tratado nos jornais pelo anagrama Esoj Osnofa.

 

Em 1971 edita Cantigas do Maio, no qual surge Grândola, Vila Morena. Zeca participa em vários festivais, sendo também publicado um livro sobre ele e lança o LP Eu vou ser como a toupeira. Em1973 canta no III Congresso da Oposição Democrática e grava o álbum Venham mais Cinco.

 

Após da Revolução dos Cravos continua a cantar, grava o LP Coro dos Tribunais e participa em numerosas sessões do Canto Livre Perseguido, bem como nas campanhas de alfabetização promovidas pelo MFA. A sua intervenção política não pára, tornando-se um admirador do período do PREC - Processo Revolucionário Em Curso. Em 1976 apoia Otelo Saraiva de Carvalho, na sua candidatura à Presidência da República.

 

Os seus últimos espectáculos decorreram no Coliseu de Lisboa e do Porto, em 1983, quando Zeca Afonso já se encontrava doente. No final desse mesmo ano, é-lhe atribuída a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa.

 

Em 1985 é editado o seu último álbum de originais, Galinhas do Mato, em que, devido ao avançado estado da doença, Zeca Afonso não consegue cantar na totalidade. Devido a isso, o álbum foi completado por: José Mário Branco, Sérgio Godinho, Helena Vieira, Fausto e Luís Represas. Em 1986, já em fase terminal da sua doença, apoia a candidatura de Maria de Lourdes Pintasilgo à presidência da república.

 

Zeca Afonso morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987 no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

Em 1994, é editado Filhos da Madrugada Cantam José Afonso, um CD duplo em homenagem a Zeca Afonso. No final de Junho seguinte, muitas das bandas portuguesas que integraram o projecto, participaram num concerto que teve lugar no então Estádio José de Alvalade, antecessor do actual Estádio Alvalade XXI.

 

Em 24 de Abril de 1994 a CeDeCe-Companhia de Dança Contemporanea, estreia no Teatro S. Luiz em Lisboa o Bailado Dançar Zeca Afonso com música de Zeca Afonso e coreografia de António Rodrigues, uma encomenda Lisboa94-Capital Europeia da Cultura.

 

Muitas das suas músicas continuam a ser gravadas por numerosos artistas portugueses e estrangeiros. Calcula-se que existam actualmente mais de 300 versões de canções suas gravadas por mais de uma centena de intérpretes, o que faz de Zeca Afonso um dos compositores portugueses mais divulgados a nível mundial.

 

O seu trabalho é reconhecido e apreciado pelo país inteiro e Zeca Afonso, com a sua incidência política que as suas canções ganharam, indiscutivelmente representa uma parte muito importante da cultura poética portuguesa.

 

Fonte Wikipédia



publicado por olhar para o mundo às 15:49 | link do post | comentar

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