Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

Há um mundo novo a descobrir nos Aquaparque

 

Os Aquaparque de André Bel e Pedro Magina não são comparáveis a nada do que tenhamos ouvido ou que estejamos a ouvir. Apesar da estranheza que suscitam, são música imediata, na boa tradição pop, e só os cantaremos quando aprendermos a ouvi-los. "Pintura Moderna", o seu magnífico segundo álbum, acaba de ser editado

 

O palco não era bem palco porque não existia qualquer obstáculo físico a separar o público da banda. O palco, de resto, não era necessário. A maioria dos que assistiam estava sentada no chão, quieta e atenta. No palco que não era bem palco, estavam dois músicos. Um deles cuspia palavras com as mãos nas teclas, largava as teclas e aproximava-se do povo sentado. O corpo contorcia-se enquanto as palavras se libertavam num cantar visceral, irreprimível. O corpo que cantava não era intérprete de coisa nenhuma, não se movia e não cantava assim para o público que o via e ouvia. Fazia-o para si, fazia-o porque não precisa de alternativa ao "ter que fazer".

Quem cantava era Pedro Magina. Que tanto foi aquela urgência irreprimível quanto uma visão pop, tão estranha quanto reconfortante, em que se misturam e confundem a guitarra acústica de uma intensa delicadeza, uma electrónica indefinida (tecno sonâmbulo?; memórias 80s devassadas?; um ser anti-Eno preso num loop?) e teclados de sintética majestosidade. Ali, no sótão do Kolovrat 79, atelier da estilista Lidija Kolovrat, em Lisboa, os !Calhau!, que acabavam de lançar o seu primeiro LP, "Quadrologia Pentacónica", já tinham actuado. Depois deles, os Aquaparque de Pedro Magina e André Abel apresentavam o seu novo álbum, o segundo. Chama-se "Pintura Moderna" e o título assenta-lhe bem. Ouvimo-lo e sentimos esse desmoronar de certezas que o moderno implica. Ouvimo-lo, nessa indefinição/cruzamento de estéticas e de memórias, ouvimos aquelas letras, da autoria de André Abel, que fluem em narrativa surpreendente sem cair no jogo semântico gratuito, ouvimos esta música de "Pintura Moderna", dizíamos, e é um sobressalto. "Não acho que o título ['Pintura Moderna'] feche, que signifique 'é isto'. O título abre [várias possibilidades]. Não há nele qualquer caução conceptual. Sugeri-o porque senti que era o título ideal. Nem argumentei." André Abel, que formou os Aquaparque com Pedro Magina em 2007 (editaram o álbum de estreia, "É Isso Aí!", dois anos depois), põe a tónica no sítio certo.

Os Aquaparque não fecham, não definem uma nova estética. Abrem possibilidades. Novas e estimulantes possibilidades pop - poderíamos dizer que, apesar da estranheza que suscitam, são música imediata, na boa tradição pop, e só os cantaremos quando aprendermos a ouvi-los. Porque os Aquaparque são "filhos" do entusiasmo criativo espoletado há alguns anos por bandas como os Loosers, Fish & Sheep ou Frango, uma galeria como a ZDB, ou um festival como o agora consolidado Out.Fest, mas não emanam de uma cena e não são comparáveis ao que quer que seja que tenhamos ouvido ou estejamos a ouvir. E não vale, dizem, englobá-los na nova música portuguesa, na nova vaga que canta em português, que explora e trabalha sobre aquilo que nos é peculiar.

"Por muito que tente, não consigo ver a música como sendo portuguesa ou estrangeira. Actualmente, não faz sentido. Música portuguesa é o fado, são músicas de cariz regional que têm uma cultura envolvida, muito vincada relativamente a uma terra e a uma região", aponta Pedro Magina. Até podemos ser assaltados, ao ouvi-lo, por reminiscências de António Variações, dos Ocaso Épico, do glamour reinventado do "Sonho azul" de Né Ladeiras, mas são isso mesmo, reminiscências, farrapos de uma memória comum que se materializa - de resto, também passa por ali romantismo soft-rock resgatado aos anos 70, a transversalidade dos Gang Gang Dance, resquícios dub e techno, planagens cósmicas dos alemães de outrora, desejo de transcendência que reconhecemos em Panda Bear. Isto para dizer que percebemos perfeitamente o que diz e porque o diz Magina.

Do egoísmo como ética

Os Aquaparque nascem de um espaço criativo íntimo, o espaço partilhado por Abel e Magina, amigos desde a infância, músicos em bandas perdidas na memória de Santo Tirso, onde se conheceram, músicos depois nos Dance Damage, que apanharam a revitalização pós-punk de início da década passada, antes de perceberem que prosseguir esse caminho era um beco sem saída e reformularem tudo. Ao segundo álbum dos Aquaparque, nem sabem bem como se definir.

No concerto de apresentação,o público manteve-se sereno e sentado, mesmo quando a música revelava uma força vital que o impeliria a erguer-se e a dançar. André Abel: "Não sabemos o que as pessoas que estão interessadas e que seguem o que fazemos acham ser o melhor 'setting' para nós. Se era aquele sótão, se será um clube. Isso será decorrente de uma certa ambiguidade estética da música. Como é que é que tem de ser um concerto?". Não chega a responder: "Em nem sei se somos mesmo uma banda. Se calhar estamos mais próximos de um duo sertanejo, como Lucas & Mateus, ou um duo tecno, como Burger & Voight".

André Abel, naquela sexta-feira em que os Aquaparque apresentaram "Pintura Moderna" no sótão de madeira desse espaço Kolovrat com pequena janela aberta sobre a cidade, lá ao fundo, e móveis antigos espalhados aqui e ali, era o músico à esquerda do palco. Ao contrário de Magina, manteve uma pose imperturbável. Dedilhando a guitarra, acertando as programações, tocando as teclas, cantando como um anti-Brian Ferry - nada de glamour aristocrata, todo o charme de uma serena discrição.

Alguns dias depois dos concertos (a seguir a Lisboa, actuaram no Porto, no Clubbing da Casa da Música), sentado com Magina numa esplanada, André Abel exclamará isto quando falamos do que era "É Isso Aí", o primeiro álbum, e do que é agora "Pintura Moderna": "É um bocado desinteressante explicar o porquê. Não trabalhamos com signos e símbolos de uma forma tão definida. Entre intenção e necessidade, escolhemos a necessidade."

É um pormenor importante. Quando editaram "É Isso Aí", afirmaram que era "só o primeiro álbum": "É um caminho." Agora, continuam. Caminham caminhando. Exploram por temperamento e por necessidade - não só nos Aquaparque, assinale-se: André Abel tem também os Tropa Macaca, que partilha com Joana da Conceição, autora da arte gráfica dos Aquaparque, e Magina editou no ano passado o álbum a solo "Nazca Lines". Exploram, portanto.

Em "Pintura Moderna", a guitarra acústica surgiu para transformar o tom e o temperamento da música. Surgiu porque André Abel queria, primeiro, "quebrar o molde formulaico que o processo [criativo nos Aquaparque] estava a tomar". Para o conseguir, pensou comprar um MPC [instrumento electrónico que processa samples], "mas não tinha dinheiro para isso". Então, "bateu-lhe" a guitarra, Magina ouviu aquele instrumento "estranho" à banda e respondeu ao estímulo. "Pensamos a música de forma egoísta", resume Pedro Magina. "É um processo nosso, e nasce de uma necessidade de nos estimularmos. Aborrecemo-nos facilmente", confessa.

Quando editaram o primeiro álbum, André já descera de Santo Tirso até Lisboa, Pedro Magina mantinha-se a Norte. Neste momento, vivem ambos na capital. Ainda assim, "Pintura Moderna" foi gravado no ambiente bucólico com urbanismo próximo de uma casa em Rebordões, aquela que o duo utiliza há anos para ensaios. A música, e isto somos nós a extrapolar, parece reflectir também essa indefinição: a gentileza de alguns arranjos e da guitarra acústica, contraposta ao tom mais nocturno e inquieto das programações. É, de certa forma, o mesmo que sentimos ao atravessar as letras de André Abel, que reflectem um certo "mal de viver", um desejo de algo que agite, que desperte, que nos obrigue a sentirmo-nos vivos - e isso é cantado por gente que agita, que desperta, que está certamente muito viva em toda a actividade que desenvolve.

Talvez o segredo esteja então nisto que cantam em "Ultra suave": "seguimos convictos de que nada deste tempo nos agrada". Se não nos der para mergulhar na depressão, torna-se mais fácil agir, agitar, sentirmo-nos vivos quando carregamos essa convicção. É o que nos diz e o que ouvimos nesta magnífica e surpreendente "Pintura Moderna" dos Aquaparque.

 

Via Público

 

 

 

 



publicado por olhar para o mundo às 23:08 | link do post | comentar

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