Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011
Os lacraus

 

O som que agora obceca Os Lacraus não é o punk hardcore. É Springsteen e os Clash. A rapaziada começou a pensar em grande, sem pudores 
E finalmente Os Lacraus editam um disco a sério. “Encaram o Lobo” vai-se ouvir em Queluz, mas também podia encher Hyde Park

Tal como o país, Tiago Cavaco teve a sua crise. No seu caso particular não nasceu de uma bolha especulativa nem envolveu dívidas externas. Foi antes coisa de dívida interna, "uma crise de identidade" que o atingiu fez o verão passado um ano. Resolveu sair da editora que fundou, a Flor Caveira, e abandonar o nome Guillul, sob o qual havia gravado cinco discos a solo. De certa maneira, conta ao Ípsilon na Igreja Baptista de São Domingos de Benfica, em Lisboa, resolveu deixar tudo o que lhe poderia trazer gratificação individual e mundana.

Pode dizer-se que Cavaco escolheu o momento mais estranho para entrar em crise. Tinha lançado o seu quinto disco a solo, "V", que foi, como os outros, extremamente bem recebido. Tinha sido pai pela quarta vez. A sua palavra era lida no blogue Voz do Deserto, talvez mais lida que nunca, e ainda tinha colaborações pontuais com jornais e revistas. Cavaco representava a epítome do equilíbrio entre seriedade e mundanidade.

Mas o homem, recorde-se, é pastor baptista, tem um rebanho de crentes e quatro filhos e ainda recentemente proferiu declarações como "a morrer por alguma coisa, que seja pela minha religião e pela minha família". Não é homem que enjeite carregar dúvidas.

Estava de férias, na praia, com um livro de Flannery O'Connor nas mãos, "Mistery and Manner", "um conjunto de ensaios sobre a obra dela, escrito por ela". E aquilo, diz, apanhou-o. "E aí fiz uma canção sobre ela." 

Cavaco ainda não sabia que de "Canção para Flannery O'Connor" ia nascer um disco dos Lacraus, a mítica banda de Queluz que criou com Ricardo e Guel, com quem toca desde 1993. (Há vídeos de concertos de Cavaco, Ricardo e Guel desta altura e, diga-se, estragam uma reputação.)

Há várias razões para apelidar os Lacraus de banda "mítica". Em parte isso deve-se a rumores que insinuam que são capazes de concertos celebratórios, extraordinários, como aliás foi possível verificar quando pousaram no Musicbox para apresentar este "Os Lacraus Encaram o Lobo". No fim tocaram a antiga e espantosa "Queluz está a arder" e o palco estava à pinha, com quase todos os músicos ligados à Flor Caveira a incendiarem cada centímetro do soalho.

Depois há a discografia, que de certo modo não existe. Há dois CD-R, "Cinco Subsídios Para o Punk-Rock do Senhor" e "Flor Caveira em Frequência Modulada", este último uma gravação de um concerto que a editora deu na Antena 3. Canções em mp3 correm por aqui e ali e no YouTube não há mais que dois pares de vídeos. Matéria mitificável, portanto.

Quando Flannery O'Connor desceu sobre Cavaco para o fazer sair da sua crise, retirá-lo das obsessões pop e o centrar na Palavra de novo, o pastor tinha acabado de comprar os sete primeiros discos do Springsteen, que estavam com desconto na Fnac, e o DVD do concerto em Hyde Park, que começa com uma versão dos Clash.

Cavaco ficou "com essa dieta". E foi aí que resolveu fazer um disco rock. E um disco rock, diz, "só poderia ser feito com Os Lacraus".

Sem mais argumentos

Desde que a editora Flor Caveira começou a ser falada (entre aspas) massivamente, os músicos que a compõem têm sido rotulados como ‘cantautores'. Faz sentido se pensarmos nos primeiros discos a solo de B Fachada, de João Coração, até mesmo de Samuel Úria. Mas entre eles, confessa Cavaco, o termo é detestado. "Parece-me que se esqueceu que os corredores de fundo da Flor Caveira são essencialmente rockers." E Os Lacraus são, definitivamente, corredores de fundo da Flor Caveira, estão lá desde o início.

Ao contrário do início, no entanto, o som que agora obceca Os Lacraus não é o punk hardcore. É Springsteen e os Clash. E, como sempre, a rapaziada começou a pensar em grande, sem pudores (uma das marcas que distingue esta malta). 

"Idealizámos um som grande, tipo ‘Born To Run' ou mesmo ‘Born In The USA'", diz Cavaco, sem pestanejar. Esse som foi construído "a partir de um som de bateria enorme que o Armando [Teixeira, ideólogo dos Balla e produtor do disco] conseguiu através de um árduo trabalho, após andar na Net a pesquisar". Cavaco continua, acrescentar outro facto ligeiramente megalómano: "O Armando disse-nos logo ‘Vamos fazer isto à [Phil] Spector, com um Wall of Sound [um tipo de produção mais preocupada com poder do que com subtileza, em que o som dos instrumentos forma uma parede massiva de som]'. E assim fizemos. Mas com menos takes."

O som de "Os Lacraus Encaram o Lobo" é um pouco como o de um moribundo que acorda, pega num martelo e arreia na cabeça de quem passa. Trata-se de bater, bater, bater. As guitarras fazem barulho, a bateria faz barulho, o baixo aguenta, a harmónica traz uma certa tristeza, a voz libertação. "É um disco rock, não é preciso mais nenhum argumento", diz Cavaco perante a bela descrição que propomos para o disco (e que reproduzimos no parágrafo acima). Por uma vez avesso a especulações o músico diz não querer "teorizar muito sobre o assunto", mas ainda assim assume que "há uma certa libertação num disco rock - chega-se, faz-se e sabe bem". É uma espécie de apologia da boa cegueira: "É rock, não é sociologia", diz, antes de acrescentar uma definição curiosa da banda: "Lacraus não complica, Lacraus entrega."

Sendo um disco particularmente catártico, nem por isso é menos propenso a palavras medidas. É até o disco mais negro que Cavaco assinou, com uma terrível presença da morte, machados por todo o lado, imagens saídas do Velho Testamento a atravessá-lo. É interessante imaginar como o ouvinte português, que quando a Flor Caveira surgiu em força se dividiu entre o agrado pelo uso descarado do português falsamente coloquial e a mais profunda desconfiança, irá reagir a palavreado tão pesado.

"É preciso que haja muita morte para se amar a vida. Para se acreditar que estar vivo não é uma coisa qualquer", atira Cavaco. "É curioso. Há quem diga que ‘Os filhos da ressurreição' [uma das canções do disco] é para crentes. Mas isso é assim porque nos habituámos a aceitar tudo nas canções em inglês. Em português canta-se ‘fé' e soa mal às pessoas, mas se for o [Johnny] Cash a cantar ‘God's gonna cut you down' já achamos muito bonito e acessível a todos."

"Os Lacraus Encaram o Lobo" é "um disco que foge às âncoras editoriais", assume Cavaco. Para o principal compositor da banda, há dois anos as pessoas iriam ouvir o disco porque era mais uma edição saída do útero Flor Caveira, porque era obrigatório picar o ponto. Mas agora "as pessoas agora vão ouvir o disco pelo que ele é, o que é uma vantagem".

"É um disco rock, não precisa de mais argumentos", repete, em jeito de última palavra. E o rock, como se sabe, só se vive se se acredita. Palavra do Senhor.


publicado por olhar para o mundo às 00:12 | link do post | comentar

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