Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
Allen Pires Sanhá

Não há preto e branco no hip hop de Halloween. “Eu não sou guia. Eu mostro. Vejo e escrevo”. Com as letras todas. Está de volta com “A Árvore Kriminal”. Uma voz imprescindível neste país que é Portugal, ano 2011


Quando descobrimos a sua música tornou-se impossível escapar-lhe. Não ouvíramos aqui nada assim, "rappado" assim, nesta voz de graves imponentes. Era impossível escapar à "Raportagem" de Halloween, que é título de uma canção, mas também descrição de um método. Ouvimo-lo: "‘Niggas pensam que estão no ecrã da televisão/ Evita irmão, a minha programação/ Bebé nasce prematura infectada com sida/ Mãe prostituta viciada em heroína/ Recluso enforcou-se com a própria camisa/ Meninas sem mamas já vendem a ‘crica'/ Máfia ucraniana mata taxista/ Festa africana acaba em rixa/ Porcos estão de luto e pedem justiça/ Agente Irineu ganhou concurso de balística".

Ouvimo-lo assim há cinco anos em "Projecto Mary Witch", o primeiro álbum do músico nascido Allen Pires Sanhá na Guiné-Bissau, português habitante de Portugal desde os quatro anos - "aterrou" na Estrela, em Lisboa, passou depois por Pinheiro de Loures, Bons Dias, Santo António dos Cavaleiros, Odivelas. Ali nasceu a música de um dos rappers mais acutilantes deste país. Um rapper que, citemo-lo, não faz rap, canta rap - "esse é o patamar superior".

Apesar de se ter tornado um dos mais citados deste país, apesar de ter chegado a Luanda para se deparar com multidões que lhe conheciam todas as músicas e que choravam a ouvi-las, é uma assombração: o preço a pagar por nos atirar a realidade à cara. E com esta capacidade nos deslumbrar: "A minha ama é a marijuana/ Eu sei que ela me engana/ Quando diz que me ama/ O nosso amor tem asas/ Mas estão enterradas na lama". Isto era "S.O.S. Vida", uma das canções de "Projecto Mary Witch". Cinco anos depois, está de regresso.

"A Árvore Kriminal", o segundo álbum, é um disco com produção mais trabalhada - "o ‘Mary Witch' tinha um som muito seco, este já tem panorâmica". A música de um rapper ferozmente independente. "Pela amizade e pela irmandade, o hip hop nasce do colectivo, mas na produção eu é que mexo as coisas." Ao longo do álbum, ouvimos o "scratch" de DJ Sas, o "flow" de Buts, J-Cap, Lord G, Psydin Atómico, Ka Tha Brabo ou de Johnny Ganza, companheiro de longa data que morreu em Março ("A Árvore Kriminal" é-lhe dedicado). No grande esquema das coisas, porém, não há que ter medo das palavras. Halloween é "egocêntrico": "Basta alguém mexer em qualquer coisa [na sua música]" e a reacção é imediata: "‘este [som] já não é meu filho'".

No hip hop que preza o sentido de comunidade, esta insularidade não é a única peculiaridade. Halloween confessa algo que soa a sacrilégio. O hip hop não é a sua cultura. "Eu não ando com djs, não ando com gajos do grafiti. Sou rapper de uma crew, mas nessa crew, rappers sou eu e mais três ou quatro. Alguns nem gostam de rap". Sente isso como vantagem. "Quando me tornei rapper, houve um convite, entre aspas, para passar a andar só com músicos. Acho isso terrível, falso. Fugi desse universo". Porque é isso uma vantagem. "Porque deu-me mais mundo", resume.

"A Árvore Kriminal", então. A obra de alguém que vê o mundo mudar sem que nada mude. "Nos sítios onde a gente cresce e para as pessoas com que a gente lida, as coisas não mudaram" - desde o anúncio dessa coisa chamada crise. "Quem eram os pobres quando entrámos na União Europeia? Grécia e Portugal. [Nessa altura] Ficou tudo um bocado iludido. ‘Já somos todos europeus e o nosso negócio agora é só Toyota'. Umas obrazinhas, umas televisões, umas fábricas e está tudo bem. Não está. Ao mínimo sobressalto, o pobre reaparece. Porque continuou pobre, porque os ricos continuaram ricos. E assim continua". E assim continua Halloween em "A Árvore Kriminal". A capa: madeira em tom de vermelho mercúrio, mão de dedos disformes esticados, qual relíquia carbonizada de Freddy Krueger. Pedaço de madeira em ambiente desolador, vermelho mercúrio, vermelho morte.

A "Árvore Kriminal", álbum em Technicolor de sombras ameaçadoras, com baixos profundos como a voz que canta o som de uma selva urbana silvando paranóia e neurose. Suspirando desespero e gritando revolta - "Portugal, jardim plantado à beira mar/Nasceram morangos e floribelas na campa de Salazar", ironiza seriíssimo; "Não foi para esta liberdade que Cabral morreu", berra desesperado". Cantando a violência de uma vida acossada (violência para salvar da violência), um por todos e "pum pum pum".

Continuamos a precisar de ir ao encontro de Halloween. Para conhecer um dos homens que vale a pena ouvir em Portugal. "Vocês comem carne todos os dias / Querem paz e harmonia / Não há paz no meu jardim, nigga / Engulam a minha dor, a minha agonia", diz o refrão de "Jardim à beira mar". Diz-nos ele agora: "Às vezes escrevo a dor do mundo, e as pessoas vêem-na. As pessoas que estão bem querem sentar-se numa esplanada e beber o seu café. Porque está tudo bem. Mas não está. Enquanto houver gente a passar fome, não pode haver paz." No fim, tudo se resume a isto. "As pessoas confundem demasiado lei com justiça. Mas não são o mesmo". Palavra de Halloween. 

O seu reino é o underground

Halloween está com o Ípsilon numa esplanada em Lisboa. Gorro na cabeça, casaco desportivo sobre o ‘jersey' dos Boston Celtics e ténis All Star - "Ei rapaz, não desperdices tanto tempo a andar/atrás dos meus velhos All-Star", ouvimo-lo no novo single, "Drunfos", de subgraves tumultuosos e batida insaciável. Foi pai há três anos, isto é a realidade, e é músico que suscita os rumores mais desvairados, e isso é a força da ficção das letras a conspirar com a realidade.

Quando o entrevistámos pela primeira vez, houve quem dissesse que nos íamos pôr em cuidados. Que ele e a sua "crew", os Youth Kriminalz, eram conhecidos por assaltar o público dos próprios concertos - ele riu-se quando lhe contámos esta história. Que ele, boato recente, morrera depois de A) ter sido baleado pela polícia, B) ter sido esfaqueado na nuca durante uma rixa. Ao vivíssimo Allen Pires Sanhá está-se marimbando para mistificações. Criador à margem. Que se afastem as honrarias. A sua ética não as contemplam. Recorre à Bíblia (a vida de Cristo é citada mais de um par de vezes durante a entrevista). "O diabo ofereceu todos os reinos da Terra a Jesus Cristo [e Ele recusou]. Quando és alguém do lado de Cristo, nunca terás qualquer reino. O mundo do estrelato é um reino que não me pertence. O meu reino é ‘underground', é cá de baixo."

Halloween, nome do hip hop que trouxe a rua para canção como ninguém tinha trazido: um realismo na lírica e no imaginário que impressionam pela crueza do relato, pela vividez da narração, pela violenta força poética das letras. A vida destas canções não é a vida de clichés glorificadores dos "malandros das ruas", ou censurando os "malandros das ruas", ou pregando paternalismos para salvar "os malandros das ruas" que não pediram para ser salvos. Halloween está farto que se queira fazer deles, rappers, "assistentes sociais". "Diz-se hoje que toda a gente quer ser famosa. Não é essa a questão. O que toda a gente quer é dar a sua opinião. A música permite-me isso. Permite-me relatar o meu mundo. E nem toda a gente tem acesso a ele."

O título do novo álbum nasceu de um paradoxo. "A árvore que dá frutos é também a árvore que podes utilizar para te enforcares". Não há preto e branco na música de Halloween. Não é homem para maniqueísmos, não está aqui para ajudar as massas a distinguir o que o que é bom e bonito do que é feio e malévolo. "Eu não sou guia. Eu mostro. Vejo e escrevo". Com as letras todas, com o negrume do mundo e os demónios que lhe assaltam a criatividade. A Halloween o que é de Halloween: esta música é sua, esta vitória que é "Árvore Kriminal" é da sua inteira responsabilidade. Bom será que a ouçamos.

 

Retirado de Ipsilon



publicado por olhar para o mundo às 21:10 | link do post | comentar

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