Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
Cristina Grande apresenta festival de artes performativas

Começa hoje, e vai até domingo, a 6.ª edição do Trama. É a extensão à Baixa portuense, e a alguns palcos inesperados, da programação mais desafiadora da arte contemporânea do museu

 

Foi com alguma resistência que Cristina Grande, o rosto do Serviço de Artes Performativas (SAP) da Fundação de Serralves, onde trabalha praticamente desde o início (entrou para a Casa em 1989), aceitou falar sozinha ao P2, para apresentar mais uma edição do festival Trama. A programadora gostaria de ter a seu lado Pedro Rocha, seu parceiro no SAP desde há mais de uma década, e os responsáveis do extinto festival Brrr e da Matéria Prima, respectivamente Rita Castro Neves e Paulo Vinhas, "cúmplices" habituais na organização deste festival que já deixou rasto na cidade.

O trabalho em equipa e em parceria com outras manifestações que interviessem artisticamente em lugares não-convencionais no centro do Porto foi uma marca fundadora do Trama. "Era preciso pensar uma iniciativa que unisse e acrescentasse cidade à já existente, que criasse redes através de uma programação concentrada no tempo", diz Cristina Grande, evocando o nascimento do Trama, em 2006. E nota que, nessa altura, "a Baixa estava praticamente esvaziada e silenciosa". O Teatro Rivoli - que ainda foi parceiro na primeira edição do festival - começava a fechar-se, fruto da nova orientação política da autarquia. Desde o início, o Trama foi à procura de novos palcos, levando até eles o que há de mais desafiador da programação artística contemporânea do Museu de Serralves. 

"Fizemos sempre questão de escolher um lugar emblemático da Baixa para palco de abertura do festival", diz Cristina Grande. Este ano, depois de uma conferência-workshop do canadiano Christof Migone na Escola de Belas-Artes (19h), é o Ateneu Comercial que, a partir das 22h, acolhe performances do duo sueco Wol, o laser musical do australiano Robin Fox e a grafonola portátil do duo Radio 78.

"São sempre os projectos que nos levam a escolher os lugares", explica a programadora, notando a preocupação de chamar a atenção das pessoas "para as potencialidades performativas de sítios desconhecidos, ou com que nos cruzamos todos os dias, mas não damos conta que eles estão ali". Alguns exemplos, na trama do festival deste ano: um armazém da Estação de S. Bento vai ser uma pista para um "rali de vinil", criado pelo australiano Lucas Abela, "um performer conhecido pelas suas propostas espectaculares, e que vai promover uma corrida sobre uma pista de "vinis", explorando um videojogo real, que envolve o próprio público"; um quarto do Hotel D. Henrique acolhe um happening, "sem título", de Oskar Goméz-Mata, que só pode ser assistido por seis pessoas de cada vez, e que Cristina Grande diz ser "uma proposta armadilhada", já que o seu conteúdo não pode ser revelado antecipadamente; e a Livraria Latina será o primeiro dos quatro lugares onde Paulo Mendes vai desafiar os portuenses a fazerem "uma reflexão crítica sobre o Estado Novo"... Outra artista que levará os participantes a descobrir algo do nosso legado histórico é Susana Mendes Silva, com um percurso, uma conferência e um ciclo de filmes destinados a reconstituir o Porto do Repórter X, o famoso jornalista, dramaturgo e cineasta que rodou nos estúdios da Invicta os filmes Rita ou Rito e Táxi 9297, que serão agora mostrados no Passos Manuel.

Uma preocupação do programa deste ano foi, diz Cristina Grande, "aprofundar os universos autorais", fazendo com que os artistas convidados possam explorar os temas e os lugares da cidade em vários momentos nos quatro dias do festival.

E qual é o lugar do Trama, e das artes performativas, no contexto da programação do Museu de Arte Contemporânea de Serralves? Cristina Grande diz que "é uma componente natural", que é pensada e discutida "sempre em diálogo com a direcção do museu", de que a programadora faz parte. "Espero que a fundação entenda que, mesmo tendo objectivos diferentes, é tão estruturante para o museu ter o Trama como o Serralves em Festa". É isso que, defende, distingue Serralves da maioria dos outros museus de arte contemporânea.

 

Retirado do Público



publicado por olhar para o mundo às 23:27 | link do post | comentar

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