Terça-feira, 26 de Julho de 2011
João Mascarenhas

A dupla de pontas-de-lança da electrónica esquisita portuguesa, Kubik e Stealing Orchestra, voltam ao activo com os respectivos terceiros discos: menos frenéticos, mais polidos e mais certeiros. E o caríssimo leitor, vai continuar a não lhes ligar nenhuma?

Ali no final do século XX, início do século XXI, mesmo a seguir à música electrónica ter tido um dos seus picos de exposição, dois rapazes portugueses puseram cá para fora coisas tão estranhas que assim à primeira vista quase pareciam estrangeiros.

Primeiro, em 1998, surgiu Kubik, que se estreou com "Oblique Music", uma distopia de colagens que inventava um mundo apocalíptico pós-Amon Tobim. Kubik surgia como uma espécie de costureira do demo, resgatando blocos de música ultra-obscura e colando-as numa estratégia de choque e pavor. Uns anos depois Mike Patton, sujeito com um cérebro anormal, admirou a beleza comovente dos bichos que Kubik criava.

O país, ingrato, borrifou-se para Kubik e borrifar-se-ia igualmente para a Stealing Orchestra, que se estrearia em 2000 com "Stereogamy", seguido do EP "É Português? Não Gosto!", de 2001. Vampiros vorazes, os moços da Stealing Orchestra pegavam na música de cartoons, no easy-listening, espancavam estes e outros géneros e devolviam-nos com amor e carinho, devidamente esquartejados.

(Um pequeno aparte: isto estava a acontecer em Portugal. Deviam ter tido laudas, poemas épicos, groupies a rasgar a roupa, estátuas pagas por autarcas corruptos. Mas não. Apenas meia-dúzia de tolinhos atentos - possivelmente gente que não toma banho -, manifestamente pouco para tanta criatividade.)

Kubik era o "alias" de Victor Afonso, professor de música da Guarda nascido em 1969, escassos anos mais velho que João Mascarenhas, o cérebro retorcido que conduz a Stealing Orchestra aos becos mais labirínticos da mente humana. Afonso e Mascarenhas não pertencem apenas à mesma geração, são antes uma espécie de gémeos siameses criados em lares adoptivos diferentes.

As diferenças entre eles 

Ambos partilhavam um amor inexcedível por toda a música criada nas margens da história oficial da música popular, ambos têm uma paixão cinéfila que se nota na música, ambos cresceram de certo modo próximos da música industrial e ambos exerciam um corte & costura como se sofressem de um défice de atenção cognitiva. 

E ambos demoram o seu tempo a parir. O terceiro disco de Kubik, "Psicotic Jazz Hall", acabado de lançar, dista seis anos de "Metamorphosia", o segundo. E o terceiro LP da Stealing Orchestra, "Deliverance", levou oito anos a surgir. 

"É curioso", dizia-nos Mascarenhas, um tripeiro, ao telefone do Porto, "nascemos na mesma altura, lançámos sempre discos na mesma altura, demorámos mais ou menos o mesmo tempo entre cada disco. Nós curtimo-nos e gostamos do que cada um faz, mas não andamos a par do que cada um está a fazer, é um acaso [as coincidências de edição]".

As razões da demora de cada um são diferentes, no entanto. Afonso tinha o disco pronto "há dois anos", mas não saiu antes porque "nenhuma editora tinha dinheiro para avançar com a edição". Entretanto fez música para teatro, companhias de dança e para filmes mudos. Mascarenhas é menos linear nas suas explicações: "Houve uns anos em que não fiz nada", explica. "Estava desempregado e quando se está desempregado o tempo nunca dá para nada - sentes que estás a perder tempo essencial. Por isso adias tudo. Depois fui montando o meu negócio e não fiz nada até estar tudo a funcionar". De há três anos para cá, no entanto, saíram-lhe "oito ou nove Eps".

As diferenças entre eles não acabam aqui. Afonso é mais conceptual, ponderado e cerebral. Cada frase sua é pensada e medida, como um conjunto de dominós que segue uma sequência. Mascarenhas salta de frase em frase, deixando respostas a meio, como um Lego que encaixa nas partes erradas. Afonso é Tetris, Mascarenhas é SuperMario (provavelmente será outro jogo qualquer com mais morte e sangue, mas serve de exemplo).

Ainda não é a canção, mas...

Tendo produzido algum do som mais arriscado alguma vez feito em Portugal, ambos chegam a este ponto do campeonato - em que já são duas velhas glórias da música portuguesa, dois guardiões da mística do balneário - fazendo discos que denotam uma maior acalmia ou decréscimo de frenesim. O que não é um defeito - é feitio.

"Os discos anteriores", dizia-nos Afonso ao telefone da Guarda, "jogavam muito no choque e na confrontação". Eram discos em que a justaposição de samples funcionava pela "distância" de universos, por assim dizer. "Não abdiquei dessa ideia, mas procurei que houvesse uma naturalidade na passagem [de uma vinheta sonora para outra]". Diz, sem sentimento de culpa, que procurou "uma certa ortodoxia de construção".

"Isto ainda não é formato canção, mas chega a uma certa normalidade", acrescenta, antes ir um pouco mais longe: "Se há álbum em que insisto muito na veia melódica, é este. Aqui procurei muito poucas dissonâncias", explica, reportando-se a uma das marcas dos seus discos anteriores. 

Este discurso aproxima-se do de Mascarenhas. Já no fim da entrevista, e num registo mais coloquial, o líder da Stealing Orchestra, eternamente desconfiado dos discursos pop, dizia-nos que "um tipo que tenta fazer uma melodia - isso é música experimental", e exemplificava: "O ‘Pet Sounds' dos Beach Boys... não há disco mais experimental e no entanto é melodioso e bonito". 

As palavras por vezes levam ao engano e podíamos ser tentados a pensar que tanto Afonso como Mascarenhas amansaram. Mas não é tanto disso que se trata, é antes uma questão de domínio sobre os materiais, de controlo sobre cada elemento da - vá - canção.

"No início", explica Mascarenhas, "é-se mais brusco a compor. Mas à medida que vais aprendendo a trabalhar o som encontras uma fluidez e as coisas encaixam melhor. Quando és mais novo há coisas que fazes que dão muito nas vistas mas que no fundo são má produção, má composição, má estética. As coisas têm de ser feitas de modo a que quando esteja tudo acabado pareça que só podia ser assim".

A inspiração para "Psicotic Jazz Hall" nasceu de um disco de Pascal Comelade, "Psicotic Music Hall". "O disco caiu-me aqui no computador", diz Afonso. "O Comelade sempre foi uma influência. Pensei que seria interessante refazer aquele conceito a partir do jazz, que tinha estado muito presente nos meus dois discos anteriores".

Esta presença jazzística acabou por definir "Psicotic Music Hall" como o final da trilogia iniciada há uma década. De certa forma é como se ao longo desses três discos fôssemos assistindo ao aprimorar de uma linguagem que, grosso modo, segue uma linha: "Eu tenho um colossal banco de samples e o meu métier é a forma como organizo e dou coerência a toda esta narrativa musical". 

A distinguir "Psicotic Jazz Hall" dos seus antecessores, além da maior polidez, há um maior "investimento nos metais e nas linhas de baixo".

Com a Stealing Orchestra a evolução também é notória: do easy-listening e da música de cartoon chegam hoje a uma espécie de prog-tudo. A base, como sempre, são os samples, que obedecem às estranhas regras de Mascarenhas. Por exemplo: "Nunca samplo coisas de que gosto, senão nunca mais consigo ouvir aquilo [que gosto]". 

Há outra particularidade que não mudou ao longo dos anos: Mascarenhas não é um melómano. "Não gosto de cenas e não gosto de movimentos. Nos movimentos levas com a banda boa, a má e as mais ou menos. Agora dizem que há uma série de bandas de Nova Iorque. Não sei quem são, nem quero saber". A própria forma de escutar discos determina um pouco o som que faz. "Os meus amigos dizem-me sempre que nunca ouço uma canção até ao fim. Mostro-lhes uma canção e digo ‘Agora ouve esta parte'. Acaba essa parte e eu: ‘Já chega, agora vamos para outra canção'". 

Ainda há muito dessa irrequietude na Stealing Orchestra, mas agora a paleta abriu-se como se no cerne de "Deliverance" estivesse a explicação do mundo. Ou como se o disco fosse a versão musical de "Árvore da Vida", o último filme de Malick, comparação que deixa Mascarenhas exultante. "Isso é o melhor elogio que me podem fazer. Adorei o filme". 

O povo, contudo, passará ao lado dos novos discos de Kubik e da Stealing Orchestra. Durante anos uma possível explicação para o caso foi dada: era música pouco emocional, ou demasiado cerebral, se preferirem. Mascarenhas não concorda. Diz que o que faz "é um tipo de música bastante emocional, que explora coisas mais complexas que os desaires de amor da pop".

Talvez ainda tenhamos de pedir a um neurocientista para decidir quem tem razão. Mas com mais emoção ou com mais cérebro (isso interessa?) a classe de final de anos 60, início dos anos 70 mostra ter afinado os seus talentos até um limite que há uma década não imaginávamos.

 

Via Público



publicado por olhar para o mundo às 16:23 | link do post | comentar

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